Uma reação com muito poder de empurrar e puxar elétrons gera um alto potencial de célula (coloquialmente, uma voltagem alta). Uma reação com pequeno poder de empurrar e puxar elétrons só gera um pequeno potencial (uma voltagem baixa). Uma bateria descarregada é uma célula em que a reação atingiu o equilíbrio, perdeu o poder de mover elétrons e tem potencial igual a zero.

Unidades

A unidade SI de carga elétrica é o coulomb. Um coulomb é a carga liberada por uma corrente de um ampère, 1 A\pu{1 A}, fluindo durante um segundo: 1 C=1 As\pu{1 C} = \pu{1 A.s}. A unidade SI de potencial é o volt, V\pu{V}. Um volt é definido de forma que uma carga igual a um coulomb, 1 C\pu{1 C}, atravessando uma diferença de potencial igual a um volt, 1 V\pu{1 V}, libere um joule, 1 J\pu{1 J}, de energia: 1 CV=1 J\pu{1 C.V} = \pu{1 J}.

Para expressar a capacidade de uma célula de gerar uma diferença de potencial quantitativamente, é interessante lembrar de dois fatores. O primeiro é que o potencial elétrico é análogo ao potencial gravitacional. O trabalho máximo que um peso que cai pode realizar é igual a sua massa vezes a diferença de potencial gravitacional. Do mesmo modo, o trabalho máximo que um elétron pode realizar é igual a sua carga vezes a diferença de potencial elétrico que ele experimenta. Portanto, o trabalho que pode ser realizado por um elétron enquanto migra entre eletrodos permite estimar a diferença de potencial entre eles. O segundo é que o trabalho elétrico é um tipo de trabalho de não expansão, porque ele envolve a movimentação de elétrons sem variação do volume do sistema. Como vimos no Tópico 2C, em temperatura e pressão constantes, o trabalho máximo de não expansão que um sistema pode executar é igual à energia livre de Gibbs. Logo, isso permitiria relacionar a diferença de potencial causada por uma reação (uma propriedade elétrica) à energia livre de Gibbs (uma propriedade termodinâmica).

Demonstração 1
Determinação do potencial de reação

A variação de energia livre de Gibbs é o trabalho máximo de não expansão que uma reação pode realizar em pressão e temperatura constantes (Tópico 2C): ΔG=Wmax, na˜o exp.(T,P  constantes) \Delta G = - W_\text{max, não exp.} \quad (T, P\; \text{constantes}) O trabalho realizado quando uma quantidade nn de elétrons (em mols) atravessa uma diferença de potencial é sua carga total vezes a diferença de potencial. A carga de um elétron é e-e. A carga por mol de elétrons é eNA-eN_\mathrm{A}, em que NAN_\mathrm{A} é a constante de Avogadro. Logo, a carga total é neNA-neN_\mathrm{A} e o trabalho realizado é Wna˜o exp.=(neNA)×Eceˊlula W_\text{não exp.} = (-neN_\mathrm{A}) \times E_\text{célula} O potencial da célula, EceˊlulaE_\text{célula}, é a diferença de potencial associada. Essa expressão normalmente é escrita em termos da constante de Faraday, FF, a magnitude da carga por mol de elétrons (o produto da carga elementar e pela constante de Avogadro NAN_\mathrm{A}): F=eNA=(1,61019 C)×(61023 C)=96500 C F = eN_\mathrm{A} = (\pu{1,6e-19 C}) \times (\pu{6e23 C}) = \pu{96500 C} Logo Wmax, na˜o exp.=nFEceˊlula W_\text{max, não exp.} = - nF E_\text{célula} em que nn é a quantidade de elétrons sendo transferidos. Desde que a célula opere reversivelmente (como explicado no Tópico 2C, em um processo reversível a força que age sobre o sistema é balanceada por uma força igual e contrária), ela produz uma diferença de potencial e a quantidade de trabalho máximo, Wna˜o exp.W_\text{não exp.}. Neste caso, portanto, ΔG=nFEceˊlula \Delta G = - nF E_\mathrm{célula}

O potencial da célula, EceˊlulaE_\text{célula}, é a diferença de potencial associada com uma célula galvânica em operação reversível. Em notação molar, ΔGr=nrFEceˊlula \Delta G_\mathrm{r} = - n_\mathrm{r} F E_\text{célula} Uma célula opera no modo reversível quando seu poder de empurrar elétrons de uma célula é balanceado por uma fonte externa de potencial. Na prática, isso significa usar um voltímetro com resistência suficientemente alta para que a diferença de potencial seja medida sem retirar corrente. Uma célula de trabalho, isto é, uma célula que produz, de fato, corrente, como a bateria de um gravador de discos compactos, produzirá um potencial menor do que o previsto por essa expressão.

A Equação 1 relaciona as informações termodinâmicas às informações eletroquímicas desenvolvidas neste tópico. As unidades de ΔGr\Delta G_\mathrm{r} são joules (ou quilojoules) por mol, com um valor que depende de EceˊlulaE_\text{célula} também da quantidade nrn_\mathrm{r} dos elétrons transferidos na reação. Assim, na reação Zn(s)+CuX2+(aq)ZnX2++Cu(s) \ce{ Zn(s) + Cu^{2+}(aq) -> Zn^{2+} + Cu(s) } nr=2n_\mathrm{r} = 2.

A diferença de potencial produzida em uma célula galvânica reversível, EceˊlulaE_\text{célula}, é um critério experimental de espontaneidade da reação que ocorre em seu interior. Se a diferença de potencial for positiva, a energia livre de Gibbs na composição da célula naquele momento (como dada pela concentração de reagentes e produtos no eletrólito) será negativa, e a reação da célula terá uma tendência espontânea de formar produtos. Se a diferença de potencial for negativa, a reação inversa da célula será espontânea, e a reação da célula terá a tendência espontânea de formar reagentes.

Exemplo 1
Cálculo da energia livre de uma reação a partir do potencial de célula

A diferença de potencial gerada célula nicad (níquel-cádmio), onde ocorre a reação Cd(s)+2Ni(OH)X3(s)Cd(OH)X2(s)+2Ni(OH)X2(s) \ce{ Cd(s) + 2 Ni(OH)3(s) -> Cd(OH)2(s) + 2 Ni(OH)2(s) } é +1,25 V\pu{+1,25 V} para uma determinada composição.

Calcule a energia de Gibbs de reação nessas condições.

Etapa 1.Determine a quantidade de elétrons transferidos na reação.

Na reação que ocorre na célula, dois elétrons são transferidos do cádmio para o níquel. Assim, nr=2n_\mathrm{r} = 2.

Etapa 2.Calcule a energia livre de reação.

De ΔGr=nrFEceˊlula\Delta G_\mathrm{r} = - n_\mathrm{r} F E_\text{célula} ΔGr=2×(96500 Cmol)×(+1,25 V)=240 kJmol1 \begin{aligned} \Delta G_\mathrm{r} &= - 2 \times (\pu{96500 C//mol}) \times (\pu{+1,25 V}) \\ &= \boxed{ \pu{-240 kJ.mol-1} } \end{aligned}

O potencial de célula padrão, EceˊlulaE_\text{célula}^\circ, é definido pela expressão ΔGr=nrFEceˊlula \Delta G^\circ_\mathrm{r} = - n_\mathrm{r} F E_\text{célula}^\circ em que ΔGr\Delta G^\circ_\mathrm{r}, a energia livre de Gibbs da reação (Tópico 2C), é definida como a diferença entre as energias molares de Gibbs dos produtos e dos reagentes em seus estados padrão. Conforme explicado naquele tópico, as condições padrão são:

  • Todos os gases em 1 bar\pu{1 bar}
  • Todos os solutos participantes em 1 molL1\pu{1 mol.L-1}
  • Todos os líquidos e sólidos são puros

Mais precisamente, todos os solutos devem ter atividade igual a um, não concentração molar igual a um. As atividades diferem apreciavelmente das molaridades em soluções de eletrólitos porque os íons interagem a distâncias maiores. Entretanto, essa complicação não é considerada neste ponto. Em alguns casos, é possível construir uma célula que gera o seu potencial padrão. Uma célula de Daniell na qual a semi-célula do cobre é composta por 1 molL1\pu{1 mol.L-1} de CuSOX4\ce{CuSO4} e um eletrodo de cobre puro e a semi-célula de zinco é composta por 1molL-1\ce{1 mol.L-1} de ZnSOX4\ce{ZnSO4} e um eletrodo de zinco puro gera o seu potencial padrão. Contudo, na maioria dos casos, a célula não pode ser construída com os reagentes e produtos separados tão claramente e, de modo geral, é melhor considerar EceˊlulaE_\text{célula}^\circ como o valor de ΔGr\Delta G_\mathrm{r} expresso como diferença de potencial em volts a partir da Equação 2 na forma Eceˊlula=ΔGr/nFE_\text{célula}^\circ = - \Delta G_\mathrm{r}^\circ/nF.

É importante entender a diferença entre ΔGr\Delta G^\circ_\mathrm{r} e ΔGr\Delta G_\mathrm{r} (e, portanto, entre EceˊlulaE^\circ_\text{célula} e EceˊlulaE_\text{célula}). A primeira é a diferença entre as energias livres de Gibbs (adequadamente ponderadas usando-se os coeficientes estequiométricos) dos produtos e dos reagentes em seus estados padrão. A segunda é a diferença (também ponderada do modo correto) entre as energias livres de Gibbs dos produtos e dos reagentes em um estágio intermediário da reação, quando estão cercados de moléculas que refletem a composição da mistura naquele momento. Logo, enquanto ΔGr\Delta G^\circ_\mathrm{r} tem valor fixo, característico da reação, ΔGr\Delta G_\mathrm{r} varia com o avanço dela. De modo análogo, EceˊlulaE_\text{célula}^\circ tem valor fixo característico de uma reação, ao passo que EceˊlulaE_\text{célula} varia com seu avanço.

Quando uma equação química de uma reação é multiplicada por um fator, ΔGr\Delta G_\mathrm{r} (e ΔGr\Delta G^\circ_\mathrm{r}) aumentam de acordo com esse fator, mas EceˊlulaE_\text{célula} (e EceˊlulaE_\text{célula}^\circ) permanecem inalterados. Para entender por que é assim, observe que, quando todos os coeficientes estequiométricos são multiplicados por 22, o valor de ΔGr\Delta G_\mathrm{r} dobra. Entretanto, ao multiplicar todos os coeficientes por 22, também dobramos o valor de nrn_\mathrm{r}, logo Eceˊlula=ΔGr/nFE_\text{célula} = - \Delta G_\mathrm{r}/nF permanece constante. Em outras palavras, embora a energia livre de Gibbs da reação (e seu valor padrão) mude quando a equação química é multiplicada por um fator, EceˊlulaE_\text{célula} (e EceˊlulaE_\text{célula}^\circ) não se altera: Zn(s)+CuX2+(aq)ZnX2+(aq)+Cu(s)+1,1 V2Zn(s)+2CuX2+(aq)2ZnX2+(aq)+2Cu(s)+1,1 V \begin{aligned} \ce{ Zn(s) + Cu^{2+}(aq) &-> Zn^{2+}(aq) + Cu(s) } && \pu{+1,1 V} \\ \ce{ 2 Zn(s) + 2 Cu^{2+}(aq) &-> 2 Zn^{2+}(aq) + 2 Cu(s) } && \pu{+1,1 V} \end{aligned} Uma consequência prática dessa conclusão é que o potencial de célula é independente do tamanho da célula. Para obter um potencial superior ao previsto pela Equação 1, você precisa construir uma bateria ligando as células em série. O potencial é, então, a soma dos potenciais das células isoladas.

O potencial de célula e a energia livre de Gibbs de reação estão relacionados pela Equação 1 e seus valores padrão pela Equação 2. A magnitude do potencial de célula não depende de como a equação química é escrita.