Na seção anterior, as transferências de energia como trabalho ou calor foram consideradas em separado, e você viu que ambas são uma maneira de alterar a energia interna de um sistema. Entretanto, em muitos processos, a energia interna de um sistema muda em consequência de ambos, o trabalho e o calor. Por exemplo, quando uma centelha acende a mistura de vapor de gasolina e ar no motor de um automóvel em movimento, o vapor queima e se expande, transferindo energia para a vizinhança na forma de calor e de trabalho.


3A.2aA primeira lei da termodinâmica

Quando um sistema realiza apenas trabalho, WW, a variação da energia interna (a energia total do sistema) é ΔU=W\Delta U = -W, e que quando um sistema troca energia apenas na forma de calor, QQ, então ΔU=Q\Delta U = Q.

Em geral, a variação de energia interna de um sistema fechado é o resultado dos dois tipos de transferência. Assim, podemos escrever a primeira lei da termodinâmica: Primeira Lei da Termodinaˆmica:ΔU=QW \boxed{ \text{Primeira Lei da Termodinâmica:} \quad \Delta U = Q - W } O calor e o trabalho são formas de transferência de energia e, portanto, de variação da energia interna de um sistema. Um sistema é como um banco de energia, cujas reservas são medidas como energia interna, e os depósitos e as retiradas ocorrem como calor ou trabalho. A Eq. 1 é uma declaração completa de como variações da energia interna de um sistema fechado de composição constante podem ser obtidas: A única forma de mudar a energia interna de um sistema fechado é transferir energia para ele na forma de calor ou trabalho.

Se o sistema está isolado, nem isso é possível, e a energia interna não pode mudar. Esta conclusão é outra forma de enunciar a primeira lei da termodinâmica:

  • A energia interna de um sistema isolado é constante.
Exemplo 1
Cálculo da variação de energia interna usando a primeira lei da termodinâmica

O motor de um automóvel realiza 520 kJ\pu{520 kJ} de trabalho e perde 220 kJ\pu{220 kJ} de energia na forma de calor.

Calcule a variação da energia interna do motor.

Etapa 1.Calcule a variação de energia interna do sistema fechado.

De ΔU=QW,\Delta U = Q - W, ΔU=(220 kJ)(520 kJ)=740 kJ \Delta U = (\pu{-220 kJ}) - (\pu{520 kJ}) = \boxed{ \pu{-740 kJ} }

Trabalho e calor são modos equivalentes de um sistema trocar energia. A primeira lei da termodinâmica afirma que a energia interna de um sistema isolado é constante.

3A.2bAs funções de estado

De acordo com a primeira lei da termodinâmica, mesmo que um sistema passe por uma série de mudanças, a energia interna se manterá invariável quando ele retornar a seu estado inicial. Resumimos essas declarações dizendo que a energia interna é uma função de estado. Uma função de estado é uma propriedade cujo valor depende somente do estado atual do sistema e não da maneira como o estado foi atingido. A pressão, o volume, a temperatura e a densidade de um sistema também são funções de estado.

A altitude de uma localidade, em uma montanha, é como uma propriedade termodinâmica de estado: não importa que caminho você escolha entre dois pontos, A e B, a mudança de altitude é a mesma. A energia interna é uma propriedade de estado: se um sistema varia do estado A ao estado B (como no esquema acima), a mudança de energia interna é a mesma, qualquer que seja o caminho entre os dois estados.
Figura

A importância das funções de estado na termodinâmica é que, como elas só dependem do estado atual do sistema, qualquer alteração de valor é independente do modo como a mudança foi feita. Uma função de estado é como a altitude em uma montanha. Podemos escolher vários caminhos diferentes entre dois pontos da montanha, mas a mudança de altitude entre os dois pontos será sempre a mesma, independentemente do caminho.

Por exemplo, se você aumentar a temperatura de 100 g\pu{100 g} de água, originalmente em 25 °C\pu{25 \degree C}, até 60 °C\pu{60 \degree C}, a energia interna variará de uma certa quantidade. Se, todavia, você aquecer a mesma massa de água de 25 °C\pu{25 \degree C} até a temperatura de fervura, deixando vaporizar toda a água, condensar o vapor e resfriar o condensado até 60 °C\pu{60 \degree C}, a variação total da energia interna é exatamente a mesma do processo anterior.

Atenção
  • Como a energia interna é uma função de estado, qualquer caminho conveniente entre os estados inicial e final de um sistema pode ser escolhido, e é possível calcular ΔU\Delta U para aquele caminho.
  • O resultado terá o mesmo valor de ΔU\Delta U que teria o caminho real entre os dois estados, mesmo que este último seja tão complicado que não permita o cálculo direto de ΔU\Delta U.

Em alguns casos, seus conhecimentos intuitivos sobre o comportamento das moléculas vão ajudá-lo a identificar a variação de energia interna de um processo sem ter de calculá-la. Por exemplo, quando um gás ideal se expande isotermicamente, suas moléculas continuam a se mover na mesma velocidade média. Como não existem forças entre as moléculas, sua energia potencial total também permanece a mesma, ainda que a separação média tenha aumentado. Como a energia cinética total e a energia potencial total não mudam, a energia interna do gás também não muda:

  • ΔU=0\Delta U = 0 para a expansão (ou compressão) isotérmica de um gás ideal.

Portanto, quando o volume de uma amostra de um gás ideal muda, por qualquer caminho entre dois estados, desde que a temperatura dos estados inicial e final seja a mesma, sabemos imediatamente que ΔU=0\Delta U = 0.

A mudança na função de estado entre dois estados é independente do caminho entre eles. A energia interna é uma função de estado. O trabalho e o calor não são.

3A.2cA energia interna e o movimento molecular

Embora o calor e o trabalho sejam equivalentes no sentido de que a variação da energia interna de um sistema é independente do caminho empregado, existe uma diferença entre eles em nível molecular. Essa diferença está relacionada à ordem no movimento dos átomos na vizinhança do sistema.

Quando energia é transferida na forma de trabalho, o sistema movimenta as moléculas da vizinhança em uma direção definida (pense nos átomos de um peso sendo erguido se movendo simultaneamente para cima). Durante a transferência de energia na forma de calor, as moléculas da vizinhança movem-se caoticamente (pense nos átomos de um objeto quente empurrando os átomos da vizinhança para movimentos randômicos mais vigorosos). Isto é:

  • O trabalho está associado ao movimento organizado dos átomos na vizinhança.
  • O calor está associado ao movimento desorganizado dos átomos na vizinhança.

A energia interna, UU, é a energia armazenada em um sistema na forma de energia cinética e energia potencial. Ela inclui toda a energia de interação das partículas fundamentais que formam os átomos e a energia acumulada como movimento. As moléculas de um gás podem se mover de várias maneiras e cada modo de movimento contribui para a energia:

  • A energia translacional é a energia de um átomo ou molécula decorrente do seu movimento no espaço.
  • A energia rotacional é a energia decorrente do movimento rotacional de uma molécula.
  • A energia vibracional é a energia armazenada por uma molécula na forma de oscilação de seus átomos uns em relação aos outros. A maior parte das moléculas não está vibracionalmente excitada na temperatura normal.

A energia cinética é a energia devida ao movimento. Quanto maior for a velocidade de translação e de rotação de uma molécula, maior será sua energia cinética. É possível estimar a energia armazenada em uma sistema de moléculas de gás usando o resultado da física clássica chamado de teorema da equipartição:

  • O valor médio de cada contribuição para a energia de um mol moléculas em uma amostra na temperatura TT é igual a 12RT\frac{1}{2}RT.

O termo equipartição significa que a energia disponível é compartilhada (particionada) igualmente entre os modos disponíveis.

Por exemplo, a energia cinética translacional é a soma dos movimentos nos eixos xx, yy e zz. Cada movimento contribui com 12RT\frac{1}{2}RT para a energia interna de uma molécula. Portanto, a energia média translacional molar, UmU_\mathrm{m}, na temperatura TT é: Um(translac¸a˜o)=32RT U_\mathrm{m}(\text{translação}) = \dfrac{3}{2} RT Gases monoatômicos possuem apenas o movimento translacional, portanto, sua energia interna molar é 32RT\frac{3}{2}RT. Uma molécula linear, como o COX2\ce{CO2}, pode rodar em torno dos dois eixos perpendiculares à linha que une os átomos, além da rotação. Logo, a energia interna molar de um gás linear é: Um(linear)=52RT U_\mathrm{m}(\text{linear}) = \dfrac{5}{2} RT Uma molécula não linear pode rodar em torno de três eixos perpendiculares entre si. Portanto, a energia interna molar de um gás não linear é: Um(na˜o linear)=3RT U_\mathrm{m}(\text{não linear}) = 3 RT

O teorema da equipartição pode ser usado para estimar as contribuições translacional e rotacional para a energia interna de um gás ideal. A contribuição vibracional para a energia é insignificante nas temperaturas comuns.