A entalpia é uma função de estado, logo, o valor de ΔH\Delta H é independente do caminho entre os estados inicial e final. Vimos que a variação de entalpia pode ser expressa como a soma das variações de entalpia de uma série de etapas. O mesmo aplica-se a reações químicas e, nesse contexto, ela é conhecida como lei de Hess:

  • A entalpia total da reação é a soma das entalpias de reação das etapas em que a reação pode ser dividida.

3B.2aA Lei de Hess

A lei de Hess aplica-se mesmo que as reações intermediárias ou a reação total não possam ser realizadas na prática. Isto é, elas podem ser hipotéticas. Conhecidas as equações balanceadas de cada etapa e sabendo que a soma dessas equações é igual à equação da reação de interesse, a entalpia de reação pode ser calculada a partir de qualquer sequência conveniente de reações.

Se a reação total pode ser separada em um conjunto de etapas, então a entalpia da reação total é a soma das entalpias de reação de cada etapa. Nenhuma das etapas é necessariamente uma reação que ocorra de fato em laboratório.
Figura

Como exemplo da lei de Hess, considere a oxidação do carbono, na forma de grafite, representado por C(gr)\ce{C(gr)}, a dióxido de carbono C(gr)+OX2(g)COX2(g) \ce{ C(gr) + O2(g) -> CO2(g) } Pode-se imaginar que essa reação aconteça em duas etapas: a oxidação do carbono a monóxido de carbono, seguida da oxidação do monóxido de carbono a dióxido de carbono. A equação da reação total é a soma das equações das etapas intermediárias: C(gr)+12 OX2(g)CO(g)ΔH=110 kJCO(g)+12 OX2(g)COX2(g)ΔH=280 kJC(gr)+OX2(g)COX2(g)ΔH=390 kJ \begin{aligned} \ce{ C(gr) + \tfrac{1}{2} O2(g) &-> CO(g) } && \Delta H = \pu{-110 kJ} \\ \ce{ CO(g) + \tfrac{1}{2} O2(g) &-> CO2(g) } && \Delta H = \pu{-280 kJ} \\[1ex] \hline \\[-2ex] \ce{ C(gr) + O2(g) &-> CO2(g) } && \Delta H = \pu{-390 kJ} \end{aligned}

Exemplo 1
Cálculo da entalpia de reação usando a lei de Hess

A gasolina, que contém octano, pode queimar até monóxido de carbono se o fornecimento de ar for reduzido.

Calcule a entalpia de combustão incompleta do octano líquido formando monóxido de carbono e água líquida.

DadosCX8HX18(l)\ce{C8H18(l)}CO(g)\ce{CO(g)}
ΔHc/kJmol\Delta H^\circ_\mathrm{c}/\pu{kJ//mol}5500\pu{-5500}280\pu{-280}
Etapa 1.Escreva a reação de interesse como uma composição das reações fornecidas.

CX8HX18(l)+252 OX2(g)8COX2(g)+9HX2O(l)8COX2(g)8CO(g)+4OX2(g)CX8HX18(l)+172 OX2(g)8CO(g)+9HX2O(l) \begin{aligned} \ce{ C8H18(l) + \tfrac{25}{2} O2(g) &-> 8 CO2(g) + 9 H2O(l) } \\ \ce{ 8 CO2(g) &-> 8 CO(g) + 4 O2(g) } \\[1ex] \hline \\[-2ex] \ce{ C8H18(l) + \tfrac{17}{2} O2(g) &-> 8 CO(g) + 9 H2O(l) } \end{aligned}

Etapa 2.Calcule a entalpia de reação.

ΔHr={(5500)8(280)}kJmol=3260 kJmol1 \Delta H^\circ_\mathrm{r} = \Big\{ (\pu{-5500}) - 8 (\pu{-280}) \Big\} \, \pu{kJ//mol} \\ = \boxed{ \pu{-3260 kJ.mol-1} }

Equações termoquímicas podem ser combinadas para dar a equação termoquímica da reação total.

3B.2bAs entalpias padrão de formação

Existem milhões de reações possíveis, e seria impraticável listar cada uma com sua entalpia padrão de reação. Os químicos, porém, inventaram uma alternativa engenhosa. Inicialmente, eles registram a entalpia padrão de formação das substâncias. Depois, combinam essas quantidades para obter a entalpia da reação desejada.

A entalpia padrão de formação, ΔHf\Delta H_\mathrm{f}^\circ, de uma substância é a entalpia padrão da reação por mol de fórmula unitária da formação de uma substância a partir de seus elementos na sua forma mais estável, como na reação de formação do etanol: 2C(gr)+3HX2(g)+12OX2(g)CX2HX5OH(l)ΔH=278 kJmol \ce{ 2 C(gr) + 3 H2(g) + 1/2 O2(g) -> C2H5OH(l) }\quad \Delta H^\circ = \pu{-278 kJ//mol} em que C(gr)\ce{C(gr)} significa grafite, a forma mais estável do carbono na temperatura normal.

A equação química que corresponde à entalpia padrão de formação de uma substância tem um só produto com o coeficiente estequiométrico igual a 1 (o que implica a formação de 1 mol\pu{1 mol} de substância). Algumas vezes, como aqui, coeficientes fracionários são necessários para os reagentes. Como as entalpias padrão de formação são expressas em quilojoules por mol da substância de interesse, neste caso ΔHf(CX2HX5OH,l)=278 kJmol1\Delta H_\mathrm{f}^\circ (\ce{C2H5OH, l}) = \pu{-278 kJ.mol-1}. Observe também como a variação da entalpia é informada, de maneira que uma espécie e seu estado (líquido, neste caso) sejam representadas na forma correta.

Atenção
  • O fósforo é uma exceção: usa-se o fósforo branco porque ele é obtido muito mais facilmente na forma pura do que os outros alótropos, mais estáveis.

A partir da definição anterior, temos que a entalpia padrão de formação de um elemento na sua forma mais estável é zero. Por exemplo, a entalpia padrão de formação de C(gr)\ce{C(gr)} é zero porque C(gr)C(gr)\ce{ C(gr) -> C(gr) } é uma reação vazia (isto é, nada muda). Neste caso, ΔHf(C,gr)=0\Delta H_\mathrm{f}^\circ (\ce{C, gr}) = 0. A entalpia de formação de um elemento em uma forma que não é a mais estável, entretanto, é diferente de zero. Por exemplo, a conversão do carbono da grafite (a forma mais estável) em diamante é endotérmica: C(gr)C(diamante)ΔH=+1,9 kJmol \ce{ C(gr) -> C(diamante) }\quad \Delta H^\circ = \pu{+1,9 kJ//mol} A entalpia padrão de formação do diamante é, portanto, registrada como ΔHf(C,diamante)=+1,9 kJmol1\Delta H_\mathrm{f}^\circ (\ce{C, diamante}) = \pu{+1,9 kJ.mol-1}.

Tabela
Formas mais estáveis dos elementos a 25 °C\pu{25 \degree C} e 1 bar\pu{1 bar}
ElementoForma mais estável
HX2,NX2,OX2,ClX2,Xe\ce{H2}, \ce{N2}, \ce{O2}, \ce{Cl2}, \ce{Xe}Gás
BrX2,Hg\ce{Br2}, \ce{Hg}Líquido
Na,Fe,IX2\ce{Na}, \ce{Fe}, \ce{I2}Sólido
C\ce{C}Grafite

Para saber como combinar entalpias padrão de formação a fim de obter uma entalpia padrão de reação, imagine que, para executar a reação, os reagentes são antes convertidos nos elementos em suas formas mais estáveis e, depois, os produtos são formados a partir desses elementos (Fig. 1).

A entalpia padrão de reação da primeira etapa é o valor negativo das entalpias padrão de formação de todos os reagentes (os reagentes estão sendo decompostos em seus elementos constituintes), e da segunda etapa é a soma das entalpias padrão de formação de todos os produtos, ambas em função da quantidade presente: ΔHr=produtosnΔHfreagentesnΔHf \boxed{ \Delta H_\mathrm{r}^\circ = \sum_\text{produtos} n \Delta H^\circ_\mathrm{f} - \sum_\text{reagentes} n \Delta H^\circ_\mathrm{f} } Nessa expressão, os valores de nn são os coeficientes estequiométricos da equação química.

A entalpia de reação pode ser obtida com base nas entalpias padrão de formação, imaginando a formação dos reagentes e dos produtos a partir de seus elementos. Logo, a entalpia de reação é a diferença entre as entalpias padrão de formação dos produtos e dos reagentes.
Figura
Exemplo 2
Cálculo da entalpia padrão de reação a partir das entalpias padrão de formação

A produção de aço a partir do minério de ferro é representada pela reação: 2FeX2OX3(s)+3C(s)4Fe(s)+3COX2(g) \ce{ 2 Fe2O3(s) + 3 C(s) -> 4 Fe(s) + 3 CO2(g) } Calcule a entalpia padrão de redução do óxido de ferro.

DadosFeX2OX3(s)\ce{Fe2O3(s)}COX2(g)\ce{CO2(g)}
ΔHf/kJmol\Delta H^\circ_\mathrm{f}/\pu{kJ//mol}824\pu{-824}394\pu{-394}
Etapa 1.Calcule a entalpia padrão de reação.

De ΔHr=produtosnΔHfreagentesnΔHf,\Delta H_\mathrm{r}^\circ = \sum_\text{produtos} n \Delta H^\circ_\mathrm{f} - \sum_\text{reagentes} n \Delta H^\circ_\mathrm{f}, ΔHr=3ΔHf,COX2(g)2ΔHf,FeX2OX3(s) \Delta H_\mathrm{r}^\circ = 3 \Delta H^\circ_{\mathrm{f}, \ce{CO2(g)}} - 2 \Delta H^\circ_{\mathrm{f}, \ce{Fe2O3(s)}} logo, ΔHr={3(394)2(824)}kJmol=+466 kJmol1 \Delta H_\mathrm{r}^\circ = \Big\{ 3 (\pu{-394}) - 2 (\pu{-824}) \Big\}\,\pu{kJ//mol} = \boxed{ \pu{+466 kJ.mol-1} }

As entalpias padrão de formação podem ser combinadas para dar a entalpia padrão de qualquer reação.

3B.2cA entalpia de reação e a temperatura

Em alguns casos, você conhece a entalpia de reação de uma temperatura mas precisa do valor para outra temperatura. As entalpias dos reagentes e produtos aumentam com a temperatura. Se a entalpia total dos reagentes aumenta mais do que a dos produtos quando a temperatura se eleva, então a entalpia de reação de uma reação exotérmica fica mais negativa, como na Fig. 2. Por outro lado, se a entalpia dos produtos aumenta mais do que a dos reagentes quando a temperatura se eleva, então a entalpia de reação fica menos negativa.

O aumento de entalpia de uma substância quando a temperatura cresce depende de sua capacidade calorífica sob pressão constante.

Se a capacidade calorífica dos reagentes é maior do que a dos produtos, a entalpia dos reagentes crescerá mais rapidamente com o aumento de temperatura. Se a reação é exotérmica, como neste caso, a entalpia de reação ficará mais negativa.
Figura

Para calcular a entalpia padrão de reação em uma temperatura diferente, podemos aproveitar o fato de que a entalpia é função de estado para propor um caminho alternativo:

  1. Levar os reagentes da temperatura de interesse até a temperatura de referência (normalmente 298 K).
  2. Conduzir a reação na temperatura de referência.
  3. Levar os produtos da temperatura de referência até a temperatura de interesse.

Como os estados inicial e final são os reagentes e produtos na temperatura de interesse, esse processo possui a mesma variação de entalpia do que a reação na temperatura de interesse.

Exemplo 3
Cálculo da entalpia de reação em uma temperatura diferente

A entalpia padrão de formação da amônia, NX2(g)+3HX2(g)2NHX3(g) \ce{ N2(g) + 3 H2(g) -> 2 NH3(g) } é 92 kJmol1\pu{-92 kJ.mol-1} em 298 K\pu{298 K}.

Calcule a entalpia de síntese de amônia em 698 °C\pu{698 \degree C}.

DadosNX2(g)\ce{N2(g)}HX2(g)\ce{H2(g)}NHX3(g)\ce{NH3(g)}
CP/JKmolC_{P}/\pu{J//K.mol}29\pu{29}28\pu{28}35\pu{35}
Etapa 1.Calcule a entalpia para levar os reagente de 698 K\pu{698 K} até 298 K.\pu{298 K}.

De ΔH=CPΔT,\Delta H = C_P \Delta T, ΔH1={(29)+3(28)}JKmol×(200 K)=23 kJmol1 \Delta H_1 = \Big\{ (\pu{29}) + 3(\pu{28}) \Big\}\,\pu{J//K.mol} \times (\pu{-200 K}) = \pu{-23 kJ.mol-1}

Etapa 2.Calcule a entalpia de reação em 298 K.\pu{298 K}.

ΔH2=ΔHr,298 K=92 kJmol1 \Delta H_2 = \Delta H_{\mathrm{r},\pu{298 K}}^\circ = \pu{-92 kJ.mol-1}

Etapa 3.Calcule a entalpia para levar os produtos de 298 K\pu{298 K} de volta até 698 K.\pu{698 K}.

De ΔH=CPΔT,\Delta H = C_P \Delta T, ΔH3={2(35)}JKmol×(+200 K)=+14 kJmol1 \Delta H_3 = \Big\{ 2(\pu{35}) \Big\}\,\pu{J//K.mol} \times (\pu{+200 K}) = \pu{+14 kJ.mol-1}

Etapa 4.Calcule a entalpia de reação 698 K\pu{698 K}.

De ΔH=ΔH1+ΔH2+ΔH3,\Delta H = \Delta H_1 + \Delta H_2 + \Delta H_3, ΔH698 K={(23)+(92)+(14)}kJmol=101 kJmol1 \Delta H_{\pu{698 K}}^\circ = \Big\{ (\pu{-23}) + (\pu{-92}) + (\pu{14}) \Big\}\,\pu{kJ//mol} = \boxed{ \pu{-101 kJ.mol-1} }

Usando esse procedimento, é fácil deduzir a lei de Kirchhoff, que relaciona a entalpia de reação na temperatura TT com a entalpia de reação na temperatura de referência, Tref,T_\mathrm{ref}, Lei de Kirchhoff:ΔHT=ΔHTref+(TTref)ΔCP \boxed{ \text{Lei de Kirchhoff:}\quad \Delta H_{T}^\circ = \Delta H_{T_\mathrm{ref}}^\circ + (T - T_\mathrm{ref}) \Delta C_P } em que ΔCP\Delta C_P é a diferença entre as capacidades caloríficas em pressão constante dos produtos e reagentes: ΔCP=produtosnCPreagentesnCP \Delta C_P = \sum_\text{produtos} n C_P - \sum_\text{reagentes} n C_P

O que esta equação revela?
  • Como a diferença das capacidades caloríficas dos reagentes e produtos normalmente é pequena, na maior parte dos casos, a entalpia de reação varia muito pouco com a temperatura e, para pequenas diferenças de temperatura, pode ser tratada como constante.

O mesmo procedimento pode ser empregado quando se deseja calcular a entalpia de uma reação quando a temperatura dos reagentes é diferente da temperatura dos produtos (Fig. 3).

A entalpia de reação com os reagentes em temperatura T_1 e os produtos em temperatura T_2 pode ser obtida tomando um caminho alternativo. 1. Os reagentes são levados de T_1 até a temperatura de referência. 2. A reação é conduzida na temperatura de referência. 3. Os produtos são levados da temperatura de referência até T_2.
Figura

A variação da entalpia padrão de reação com a temperatura é dada pela lei de Kirchhoff.