A entalpia é uma função de estado, logo, o valor de é independente do caminho entre os estados inicial e final. Vimos que a variação de entalpia pode ser expressa como a soma das variações de entalpia de uma série de etapas. O mesmo aplica-se a reações químicas e, nesse contexto, ela é conhecida como lei de Hess:
A lei de Hess aplica-se mesmo que as reações intermediárias ou a reação total não possam ser realizadas na prática. Isto é, elas podem ser hipotéticas. Conhecidas as equações balanceadas de cada etapa e sabendo que a soma dessas equações é igual à equação da reação de interesse, a entalpia de reação pode ser calculada a partir de qualquer sequência conveniente de reações.
Como exemplo da lei de Hess, considere a oxidação do carbono, na forma de grafite, representado por , a dióxido de carbono Pode-se imaginar que essa reação aconteça em duas etapas: a oxidação do carbono a monóxido de carbono, seguida da oxidação do monóxido de carbono a dióxido de carbono. A equação da reação total é a soma das equações das etapas intermediárias:
A gasolina, que contém octano, pode queimar até monóxido de carbono se o fornecimento de ar for reduzido.
Calcule a entalpia de combustão incompleta do octano líquido formando monóxido de carbono e água líquida.
| Dados | ||
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Equações termoquímicas podem ser combinadas para dar a equação termoquímica da reação total.
Existem milhões de reações possíveis, e seria impraticável listar cada uma com sua entalpia padrão de reação. Os químicos, porém, inventaram uma alternativa engenhosa. Inicialmente, eles registram a entalpia padrão de formação das substâncias. Depois, combinam essas quantidades para obter a entalpia da reação desejada.
A entalpia padrão de formação, , de uma substância é a entalpia padrão da reação por mol de fórmula unitária da formação de uma substância a partir de seus elementos na sua forma mais estável, como na reação de formação do etanol: em que significa grafite, a forma mais estável do carbono na temperatura normal.
A equação química que corresponde à entalpia padrão de formação de uma substância tem um só produto com o coeficiente estequiométrico igual a 1 (o que implica a formação de de substância). Algumas vezes, como aqui, coeficientes fracionários são necessários para os reagentes. Como as entalpias padrão de formação são expressas em quilojoules por mol da substância de interesse, neste caso . Observe também como a variação da entalpia é informada, de maneira que uma espécie e seu estado (líquido, neste caso) sejam representadas na forma correta.
A partir da definição anterior, temos que a entalpia padrão de formação de um elemento na sua forma mais estável é zero. Por exemplo, a entalpia padrão de formação de é zero porque é uma reação vazia (isto é, nada muda). Neste caso, . A entalpia de formação de um elemento em uma forma que não é a mais estável, entretanto, é diferente de zero. Por exemplo, a conversão do carbono da grafite (a forma mais estável) em diamante é endotérmica: A entalpia padrão de formação do diamante é, portanto, registrada como .
| Elemento | Forma mais estável |
|---|---|
| Gás | |
| Líquido | |
| Sólido | |
| Grafite |
Para saber como combinar entalpias padrão de formação a fim de obter uma entalpia padrão de reação, imagine que, para executar a reação, os reagentes são antes convertidos nos elementos em suas formas mais estáveis e, depois, os produtos são formados a partir desses elementos (Fig. 1).
A entalpia padrão de reação da primeira etapa é o valor negativo das entalpias padrão de formação de todos os reagentes (os reagentes estão sendo decompostos em seus elementos constituintes), e da segunda etapa é a soma das entalpias padrão de formação de todos os produtos, ambas em função da quantidade presente: Nessa expressão, os valores de são os coeficientes estequiométricos da equação química.
A produção de aço a partir do minério de ferro é representada pela reação: Calcule a entalpia padrão de redução do óxido de ferro.
| Dados | ||
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De logo,
As entalpias padrão de formação podem ser combinadas para dar a entalpia padrão de qualquer reação.
Em alguns casos, você conhece a entalpia de reação de uma temperatura mas precisa do valor para outra temperatura. As entalpias dos reagentes e produtos aumentam com a temperatura. Se a entalpia total dos reagentes aumenta mais do que a dos produtos quando a temperatura se eleva, então a entalpia de reação de uma reação exotérmica fica mais negativa, como na Fig. 2. Por outro lado, se a entalpia dos produtos aumenta mais do que a dos reagentes quando a temperatura se eleva, então a entalpia de reação fica menos negativa.
O aumento de entalpia de uma substância quando a temperatura cresce depende de sua capacidade calorífica sob pressão constante.
Para calcular a entalpia padrão de reação em uma temperatura diferente, podemos aproveitar o fato de que a entalpia é função de estado para propor um caminho alternativo:
Como os estados inicial e final são os reagentes e produtos na temperatura de interesse, esse processo possui a mesma variação de entalpia do que a reação na temperatura de interesse.
A entalpia padrão de formação da amônia, é em .
Calcule a entalpia de síntese de amônia em .
| Dados | |||
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De
De
De
Usando esse procedimento, é fácil deduzir a lei de Kirchhoff, que relaciona a entalpia de reação na temperatura com a entalpia de reação na temperatura de referência, em que é a diferença entre as capacidades caloríficas em pressão constante dos produtos e reagentes:
O mesmo procedimento pode ser empregado quando se deseja calcular a entalpia de uma reação quando a temperatura dos reagentes é diferente da temperatura dos produtos (Fig. 3).
A variação da entalpia padrão de reação com a temperatura é dada pela lei de Kirchhoff.