Muitas transformações inorgânicas não podem ser compreendidas apenas como trocas de íons ou transferências de prótons. Em um grande número de reações, a mudança essencial é a transferência de elétrons entre espécies químicas. Essas transformações são reações de oxidação e redução, ou simplesmente reações redox. Elas aparecem na combustão de metais, na corrosão, na extração de metais a partir de minérios, na ação de oxidantes de laboratório e nas reações de deslocamento entre metais e halogênios. Nesta seção, o objetivo é mostrar como as reações redox aparecem em contextos descritivos característicos da Química Inorgânica e como o método das semi-reações permite representá-las de modo claro.


1L.3aCombustão, oxidação e redução

A combustão é uma das manifestações mais visíveis de uma reação redox. Em seu sentido mais amplo, ela corresponde à reação rápida de uma substância com um agente oxidante, frequentemente o oxigênio do ar, com liberação de energia. Em Química Inorgânica, a combustão de metais fornece exemplos simples e muito instrutivos: 2Mg(s)+OX2(g)2MgO(s)4Al(s)+3OX2(g)2AlX2OX3(s)4Fe(s)+3OX2(g)2FeX2OX3(s) \begin{aligned} \ce{ 2 Mg(s) + O2(g) &-> 2 MgO(s) }\\ \ce{ 4 Al(s) + 3 O2(g) &-> 2 Al2O3(s) }\\ \ce{ 4 Fe(s) + 3 O2(g) &-> 2 Fe2O3(s) } \end{aligned} Nessas reações, o metal é oxidado e o oxigênio é reduzido. O metal perde elétrons e passa a um NOX positivo; o oxigênio ganha elétrons e passa ao NOX 2-2 nos óxidos comuns.

A combustão não se limita aos metais. Enxofre e fósforo, por exemplo, também sofrem oxidação ao reagirem com oxigênio: S(s)+OX2(g)SOX2(g)PX4(s)+5OX2(g)PX4OX10(s) \begin{aligned} \ce{ S(s) + O2(g) &-> SO2(g) }\\ \ce{ P4(s) + 5 O2(g) &-> P4O10(s) } \end{aligned} Essas reações mostram que a oxidação não deve ser entendida apenas como “combinação com oxigênio”, embora esse seja um caso importante. O conceito mais geral é a perda de elétrons ou o aumento do NOX.

A redução aparece de modo igualmente importante quando um óxido metálico é convertido em metal. Esse é um tema central em metalurgia. O monóxido de carbono, por exemplo, reduz o óxido de ferro(III) em altas temperaturas: FeX2OX3(s)+3CO(g)2Fe(s)+3COX2(g) \ce{ Fe2O3(s) + 3 CO(g) -> 2 Fe(s) + 3 CO2(g) } Nessa transformação, o ferro é reduzido de +3+3 para 00, enquanto o carbono no monóxido de carbono é oxidado de +2+2 para +4+4 no dióxido de carbono. A equação mostra, portanto, uma troca clara entre oxidação e redução.

É importante reconhecer que os termos oxidante e redutor descrevem o papel da espécie na reação. O agente oxidante é a espécie que provoca a oxidação da outra e, por isso, é reduzido. O agente redutor é a espécie que provoca a redução da outra e, por isso, é oxidado. No caso da redução do óxido de ferro por monóxido de carbono, CO\ce{CO} é o redutor e FeX2OX3\ce{Fe2O3} contém a espécie oxidante.

A leitura redox de uma reação inorgânica deve, portanto, seguir uma ordem simples. Primeiro, identificam-se as espécies cujo NOX muda. Depois, determina-se qual delas aumenta e qual diminui o NOX. Por fim, atribuem-se os papéis de oxidante e redutor. Essa leitura transforma uma equação química em um processo de transferência eletrônica claramente interpretável.

Reações redox inorgânicas aparecem com nitidez na combustão, na corrosão e na redução de óxidos metálicos. O que as define é a mudança de NOX associada à transferência de elétrons.

1L.3bDeslocamento entre metais e halogênios

As reações de deslocamento oferecem uma das formas mais simples de reconhecer o caráter redox de uma transformação. Nelas, uma substância simples reage com um composto e desloca dele um elemento da mesma natureza química. Para que isso ocorra, a espécie livre deve ser mais reativa do que a espécie combinada no composto.

No caso dos metais, um metal mais redutor pode deslocar o cátion de um metal menos redutor. O zinco metálico, por exemplo, desloca cobre(II) de uma solução de sulfato de cobre: Zn(s)+CuSOX4(aq)ZnSOX4(aq)+Cu(s) \ce{ Zn(s) + CuSO4(aq) -> ZnSO4(aq) + Cu(s) } A equação iônica simplificada torna o processo ainda mais claro: Zn(s)+CuX2+(aq)ZnX2+(aq)+Cu(s) \ce{ Zn(s) + Cu^{2+}(aq) -> Zn^{2+}(aq) + Cu(s) } O zinco é oxidado de 00 para +2+2, e o cobre é reduzido de +2+2 para 00. O zinco atua, portanto, como agente redutor.

O ferro também pode deslocar cobre(II): Fe(s)+CuSOX4(aq)FeSOX4(aq)+Cu(s) \ce{ Fe(s) + CuSO4(aq) -> FeSO4(aq) + Cu(s) } mas o cobre metálico não desloca zinco(II) ou ferro(II) de seus sais em condições usuais: Cu(s)+ZnSOX4(aq)   na˜o reage \ce{ Cu(s) + ZnSO4(aq) \;\text{não reage} } Esses fatos se organizam em uma fila de reatividade metálica, que, no nível descritivo, deve ser entendida como uma ordem relativa de tendência à oxidação.

MetalTendência relativa à oxidação
K, Na, Camuito alta
Mg, Al, Znalta
Fe, Ni, Sn, Pbintermediária
Cu, Hg, Agbaixa
Au, Ptmuito baixa

Essa tabela não substitui uma discussão quantitativa de potenciais, mas resume uma regularidade de grande utilidade prática: metais mais reativos tendem a deslocar os menos reativos de suas soluções salinas.

Os halogênios seguem uma lógica análoga, mas como agentes oxidantes. O cloro, mais oxidante, desloca brometo e iodeto de suas soluções: ClX2(aq)+2KBr(aq)2KCl(aq)+BrX2(aq)ClX2(aq)+2KI(aq)2KCl(aq)+IX2(aq) \begin{aligned} \ce{ Cl2(aq) + 2 KBr(aq) &-> 2 KCl(aq) + Br2(aq) }\\ \ce{ Cl2(aq) + 2 KI(aq) &-> 2 KCl(aq) + I2(aq) } \end{aligned} O bromo, por sua vez, desloca iodeto, mas não cloreto: BrX2(aq)+2KI(aq)2KBr(aq)+IX2(aq)BrX2(aq)+2KCl(aq)   na˜o reage \begin{aligned} \ce{ Br2(aq) + 2 KI(aq) &-> 2 KBr(aq) + I2(aq) }\\ \ce{ Br2(aq) + 2 KCl(aq) \;\text{não reage} } \end{aligned} Essas reações mostram que a força oxidante dos halogênios decresce, em termos gerais, de FX2\ce{F2} para IX2\ce{I2}.

HalogênioTendência relativa a oxidar
FX2\ce{F2}muito alta
ClX2\ce{Cl2}alta
BrX2\ce{Br2}intermediária
IX2\ce{I2}menor

A utilidade dessas reações está em sua simplicidade. Elas conectam periodicidade, reatividade e redox em um mesmo quadro. Um metal mais redutor desloca o cátion de um metal menos redutor; um halogênio mais oxidante desloca o haleto de um halogênio menos oxidante.

As reações de deslocamento transformam a reatividade relativa em evidência experimental. Elas mostram, de maneira direta, quais metais tendem a se oxidar mais facilmente e quais halogênios atuam como oxidantes mais fortes.

1L.3cÓxidos, peróxidos e agentes oxidantes inorgânicos

A Química Inorgânica descritiva faz uso frequente de espécies oxidantes características. Algumas delas pertencem à química do oxigênio, como peróxidos; outras são oxiânions fortemente oxidantes; outras ainda aparecem em reagentes de laboratório, em desinfetantes ou em processos industriais. O reconhecimento dessas espécies é importante porque elas retornam em muitos contextos.

O peróxido de hidrogênio, HX2OX2\ce{H2O2}, é um dos exemplos mais importantes. Seu comportamento redox depende do meio e do reagente com que entra em contato. Ele pode atuar como oxidante, por exemplo, na oxidação de íons iodeto em meio ácido: HX2OX2(aq)+2IX(aq)+2HX+(aq)IX2(aq)+2HX2O(l) \ce{ H2O2(aq) + 2 I^-(aq) + 2 H^+(aq) -> I2(aq) + 2 H2O(l) } mas também pode atuar como redutor, como na reação com permanganato em meio ácido: 2MnOX4X(aq)+5HX2OX2(aq)+6HX+(aq)2MnX2+(aq)+5OX2(g)+8HX2O(l) \begin{aligned} \ce{ 2 MnO4^-(aq) + 5 H2O2(aq) + &6 H^+(aq) -> }\\ \ce{ &2 Mn^{2+}(aq) + 5 O2(g) + 8 H2O(l) } \end{aligned} Esse comportamento duplo é uma característica marcante do peróxido de hidrogênio.

Os hipocloritos também são oxidantes importantes. O hipoclorito de sódio, NaClO\ce{NaClO}, presente em soluções de água sanitária, deve sua ação oxidante ao ânion ClOX\ce{ClO^-}. Em meio adequado, ele pode oxidar uma grande variedade de espécies, inclusive matéria orgânica e íons metálicos em estados de oxidação mais baixos. Em termos descritivos, o ponto importante é reconhecer o hipoclorito como um oxidante comum em processos de branqueamento e desinfecção.

Entre os oxiânions oxidantes, o permanganato merece destaque. O íon MnOX4X\ce{MnO4^-} contém manganês em NOX +7+7 e, por isso, tende a ser fortemente oxidante, especialmente em meio ácido. Sua redução pode conduzir a produtos diferentes conforme o meio, mas, em meio ácido, a redução a MnX2+\ce{Mn^{2+}} é a mais característica: MnOX4X(aq)+8HX+(aq)+5eXMnX2+(aq)+4HX2O(l) \ce{ MnO4^-(aq) + 8 H^+(aq) + 5 e^- -> Mn^{2+}(aq) + 4 H2O(l) } Essa meia-reação é um padrão importante, não apenas pelo uso analítico do permanganato, mas também por seu valor como exemplo de agente oxidante em alto NOX.

O dicromato, CrX2OX7X2\ce{Cr2O7^{2-}}, é outro oxidante clássico em meio ácido: CrX2OX7X2(aq)+14HX+(aq)+6eX2CrX3+(aq)+7HX2O(l) \ce{ Cr2O7^{2-}(aq) + 14 H^+(aq) + 6 e^- -> 2 Cr^{3+}(aq) + 7 H2O(l) } No nível descritivo, ele é importante sobretudo como espécie oxidante de laboratório e como exemplo de oxiânion fortemente oxidante de um metal de transição.

Espécie Meio típico de ação Produto de redução
HX2OX2\ce{H2O2}ácido, neutro ou básicoHX2O\ce{H2O} ou OX2\ce{O2}
ClOX\ce{ClO^-}básico ou neutroClX\ce{Cl^-}
MnOX4X\ce{MnO4^-}especialmente ácidoMnX2+\ce{Mn^{2+}}
CrX2OX7X2\ce{Cr2O7^{2-}}ácidoCrX3+\ce{Cr^{3+}}
ClX2\ce{Cl2}aquosoClX\ce{Cl^-}
OX3\ce{O3}variadoOX2\ce{O2}

Nem todo oxidante importante é um oxiânion. O próprio cloro molecular, ClX2\ce{Cl2}, é um oxidante muito importante em água: ClX2(aq)+2IX(aq)2ClX(aq)+IX2(aq) \ce{ Cl2(aq) + 2 I^-(aq) -> 2 Cl^-(aq) + I2(aq) } Essa reação retoma a lógica dos deslocamentos entre halogênios e mostra que a fronteira entre “reação de deslocamento” e “reação redox” é, muitas vezes, apenas uma diferença de ponto de vista.

O NOX orienta a leitura

Espécies em NOX muito altos, como MnOX4X\ce{MnO4^-}, CrX2OX7X2\ce{Cr2O7^{2-}} e ClOX\ce{ClO^-}, frequentemente atuam como oxidantes. Espécies em NOX muito baixos, ou metais livres, frequentemente atuam como redutores. Essa tendência não substitui a análise da equação, mas a orienta.

O reconhecimento de oxidantes e redutores típicos permite ler uma reação inorgânica com muito mais rapidez. Em vez de começar do zero a cada equação, o químico identifica espécies familiares e antecipa o sentido geral da transformação.

A Química Inorgânica descritiva depende do reconhecimento de oxidantes e redutores característicos. Peróxidos, hipocloritos, permanganato, dicromato e halogênios moleculares são alguns dos agentes oxidantes mais recorrentes.

1L.3dSemi-reações e balanceamento prático

As reações redox tornam-se mais transparentes quando são decompostas em duas partes complementares: a semi-reação de oxidação e a semi-reação de redução. Essa decomposição não é apenas um recurso de balanceamento; ela revela explicitamente o fluxo de elétrons no sistema.

Considere, por exemplo, a reação entre zinco metálico e íons cobre(II): Zn(s)+CuX2+(aq)ZnX2+(aq)+Cu(s) \ce{ Zn(s) + Cu^{2+}(aq) -> Zn^{2+}(aq) + Cu(s) } A semi-reação de oxidação é: Zn(s)ZnX2+(aq)+2eX \ce{ Zn(s) -> Zn^{2+}(aq) + 2 e^- } e a semi-reação de redução é: CuX2+(aq)+2eXCu(s) \ce{ Cu^{2+}(aq) + 2 e^- -> Cu(s) } Somando as duas, os elétrons se cancelam e a equação global é recuperada. Esse é o caso mais simples, porque não há necessidade de ajustar oxigênio, hidrogênio ou meio.

Em reações mais complexas, especialmente quando espécies oxigenadas estão envolvidas, o balanceamento por semi-reações segue uma sequência ordenada. Primeiro, separam-se as semi-reações. Em seguida, balanceiam-se todos os átomos que não sejam oxigênio nem hidrogênio. Depois, ajustam-se oxigênios com HX2O\ce{H2O} e hidrogênios com HX+\ce{H^+} em meio ácido ou com OHX\ce{OH^-} em meio básico. Por fim, a carga é ajustada com elétrons.

Em meio ácido, a redução do permanganato a manganês(II) é o exemplo mais importante: MnOX4X(aq)+8HX+(aq)+5eXMnX2+(aq)+4HX2O(l) \ce{ MnO4^-(aq) + 8 H^+(aq) + 5 e^- -> Mn^{2+}(aq) + 4 H2O(l) } Se essa semi-reação for combinada, por exemplo, com a oxidação do íon ferro(II), FeX2+(aq)FeX3+(aq)+eX \ce{ Fe^{2+}(aq) -> Fe^{3+}(aq) + e^- } é preciso multiplicar essa segunda semi-reação por 55 para igualar os elétrons: MnOX4X(aq)+8HX+(aq)+5eXMnX2+(aq)+4HX2O(l)5FeX2+(aq)5FeX3+(aq)+5eX \begin{aligned} \ce{ MnO4^-(aq) + 8 H^+(aq) + 5 e^- &-> Mn^{2+}(aq) + 4 H2O(l) }\\ \ce{ 5 Fe^{2+}(aq) &-> 5 Fe^{3+}(aq) + 5 e^- } \end{aligned} A soma conduz à equação global: MnOX4X(aq)+8HX+(aq)+5FeX2+(aq)MnX2+(aq)+4HX2O(l)+5FeX3+(aq) \begin{aligned} \ce{ MnO4^-(aq) + 8 H^+(aq) + &5 Fe^{2+}(aq) -> }\\ \ce{ &Mn^{2+}(aq) + 4 H2O(l) + 5 Fe^{3+}(aq) }\\ \end{aligned}

Em meio básico, o ajuste final costuma exigir a neutralização de prótons por hidróxidos. Um exemplo simples é a desproporcionação do cloro em meio básico, que pode ser organizada por semi-reações, embora nesse caso a dedução completa seja mais longa. O ponto importante, para este nível, é reconhecer que o meio da reação afeta diretamente o balanceamento e, muitas vezes, também os produtos.

O método das semi-reações não é apenas uma técnica de balanceamento. Ele torna explícita a transferência de elétrons e esclarece a estrutura redox da transformação química.