Muitas transformações inorgânicas não podem ser compreendidas apenas como trocas de íons ou transferências de prótons. Em um grande número de reações, a mudança essencial é a transferência de elétrons entre espécies químicas. Essas transformações são reações de oxidação e redução, ou simplesmente reações redox. Elas aparecem na combustão de metais, na corrosão, na extração de metais a partir de minérios, na ação de oxidantes de laboratório e nas reações de deslocamento entre metais e halogênios. Nesta seção, o objetivo é mostrar como as reações redox aparecem em contextos descritivos característicos da Química Inorgânica e como o método das semi-reações permite representá-las de modo claro.
A combustão é uma das manifestações mais visíveis de uma reação redox. Em seu sentido mais amplo, ela corresponde à reação rápida de uma substância com um agente oxidante, frequentemente o oxigênio do ar, com liberação de energia. Em Química Inorgânica, a combustão de metais fornece exemplos simples e muito instrutivos: Nessas reações, o metal é oxidado e o oxigênio é reduzido. O metal perde elétrons e passa a um NOX positivo; o oxigênio ganha elétrons e passa ao NOX nos óxidos comuns.
A combustão não se limita aos metais. Enxofre e fósforo, por exemplo, também sofrem oxidação ao reagirem com oxigênio: Essas reações mostram que a oxidação não deve ser entendida apenas como “combinação com oxigênio”, embora esse seja um caso importante. O conceito mais geral é a perda de elétrons ou o aumento do NOX.
A redução aparece de modo igualmente importante quando um óxido metálico é convertido em metal. Esse é um tema central em metalurgia. O monóxido de carbono, por exemplo, reduz o óxido de ferro(III) em altas temperaturas: Nessa transformação, o ferro é reduzido de para , enquanto o carbono no monóxido de carbono é oxidado de para no dióxido de carbono. A equação mostra, portanto, uma troca clara entre oxidação e redução.
É importante reconhecer que os termos oxidante e redutor descrevem o papel da espécie na reação. O agente oxidante é a espécie que provoca a oxidação da outra e, por isso, é reduzido. O agente redutor é a espécie que provoca a redução da outra e, por isso, é oxidado. No caso da redução do óxido de ferro por monóxido de carbono, é o redutor e contém a espécie oxidante.
A leitura redox de uma reação inorgânica deve, portanto, seguir uma ordem simples. Primeiro, identificam-se as espécies cujo NOX muda. Depois, determina-se qual delas aumenta e qual diminui o NOX. Por fim, atribuem-se os papéis de oxidante e redutor. Essa leitura transforma uma equação química em um processo de transferência eletrônica claramente interpretável.
Reações redox inorgânicas aparecem com nitidez na combustão, na corrosão e na redução de óxidos metálicos. O que as define é a mudança de NOX associada à transferência de elétrons.
As reações de deslocamento oferecem uma das formas mais simples de reconhecer o caráter redox de uma transformação. Nelas, uma substância simples reage com um composto e desloca dele um elemento da mesma natureza química. Para que isso ocorra, a espécie livre deve ser mais reativa do que a espécie combinada no composto.
No caso dos metais, um metal mais redutor pode deslocar o cátion de um metal menos redutor. O zinco metálico, por exemplo, desloca cobre(II) de uma solução de sulfato de cobre: A equação iônica simplificada torna o processo ainda mais claro: O zinco é oxidado de para , e o cobre é reduzido de para . O zinco atua, portanto, como agente redutor.
O ferro também pode deslocar cobre(II): mas o cobre metálico não desloca zinco(II) ou ferro(II) de seus sais em condições usuais: Esses fatos se organizam em uma fila de reatividade metálica, que, no nível descritivo, deve ser entendida como uma ordem relativa de tendência à oxidação.
| Metal | Tendência relativa à oxidação |
|---|---|
| K, Na, Ca | muito alta |
| Mg, Al, Zn | alta |
| Fe, Ni, Sn, Pb | intermediária |
| Cu, Hg, Ag | baixa |
| Au, Pt | muito baixa |
Essa tabela não substitui uma discussão quantitativa de potenciais, mas resume uma regularidade de grande utilidade prática: metais mais reativos tendem a deslocar os menos reativos de suas soluções salinas.
Os halogênios seguem uma lógica análoga, mas como agentes oxidantes. O cloro, mais oxidante, desloca brometo e iodeto de suas soluções: O bromo, por sua vez, desloca iodeto, mas não cloreto: Essas reações mostram que a força oxidante dos halogênios decresce, em termos gerais, de para .
| Halogênio | Tendência relativa a oxidar |
|---|---|
| muito alta | |
| alta | |
| intermediária | |
| menor |
A utilidade dessas reações está em sua simplicidade. Elas conectam periodicidade, reatividade e redox em um mesmo quadro. Um metal mais redutor desloca o cátion de um metal menos redutor; um halogênio mais oxidante desloca o haleto de um halogênio menos oxidante.
As reações de deslocamento transformam a reatividade relativa em evidência experimental. Elas mostram, de maneira direta, quais metais tendem a se oxidar mais facilmente e quais halogênios atuam como oxidantes mais fortes.
A Química Inorgânica descritiva faz uso frequente de espécies oxidantes características. Algumas delas pertencem à química do oxigênio, como peróxidos; outras são oxiânions fortemente oxidantes; outras ainda aparecem em reagentes de laboratório, em desinfetantes ou em processos industriais. O reconhecimento dessas espécies é importante porque elas retornam em muitos contextos.
O peróxido de hidrogênio, , é um dos exemplos mais importantes. Seu comportamento redox depende do meio e do reagente com que entra em contato. Ele pode atuar como oxidante, por exemplo, na oxidação de íons iodeto em meio ácido: mas também pode atuar como redutor, como na reação com permanganato em meio ácido: Esse comportamento duplo é uma característica marcante do peróxido de hidrogênio.
Os hipocloritos também são oxidantes importantes. O hipoclorito de sódio, , presente em soluções de água sanitária, deve sua ação oxidante ao ânion . Em meio adequado, ele pode oxidar uma grande variedade de espécies, inclusive matéria orgânica e íons metálicos em estados de oxidação mais baixos. Em termos descritivos, o ponto importante é reconhecer o hipoclorito como um oxidante comum em processos de branqueamento e desinfecção.
Entre os oxiânions oxidantes, o permanganato merece destaque. O íon contém manganês em NOX e, por isso, tende a ser fortemente oxidante, especialmente em meio ácido. Sua redução pode conduzir a produtos diferentes conforme o meio, mas, em meio ácido, a redução a é a mais característica: Essa meia-reação é um padrão importante, não apenas pelo uso analítico do permanganato, mas também por seu valor como exemplo de agente oxidante em alto NOX.
O dicromato, , é outro oxidante clássico em meio ácido: No nível descritivo, ele é importante sobretudo como espécie oxidante de laboratório e como exemplo de oxiânion fortemente oxidante de um metal de transição.
| Espécie | Meio típico de ação | Produto de redução |
|---|---|---|
| ácido, neutro ou básico | ou | |
| básico ou neutro | ||
| especialmente ácido | ||
| ácido | ||
| aquoso | ||
| variado |
Nem todo oxidante importante é um oxiânion. O próprio cloro molecular, , é um oxidante muito importante em água: Essa reação retoma a lógica dos deslocamentos entre halogênios e mostra que a fronteira entre “reação de deslocamento” e “reação redox” é, muitas vezes, apenas uma diferença de ponto de vista.
Espécies em NOX muito altos, como , e , frequentemente atuam como oxidantes. Espécies em NOX muito baixos, ou metais livres, frequentemente atuam como redutores. Essa tendência não substitui a análise da equação, mas a orienta.
O reconhecimento de oxidantes e redutores típicos permite ler uma reação inorgânica com muito mais rapidez. Em vez de começar do zero a cada equação, o químico identifica espécies familiares e antecipa o sentido geral da transformação.
A Química Inorgânica descritiva depende do reconhecimento de oxidantes e redutores característicos. Peróxidos, hipocloritos, permanganato, dicromato e halogênios moleculares são alguns dos agentes oxidantes mais recorrentes.
As reações redox tornam-se mais transparentes quando são decompostas em duas partes complementares: a semi-reação de oxidação e a semi-reação de redução. Essa decomposição não é apenas um recurso de balanceamento; ela revela explicitamente o fluxo de elétrons no sistema.
Considere, por exemplo, a reação entre zinco metálico e íons cobre(II): A semi-reação de oxidação é: e a semi-reação de redução é: Somando as duas, os elétrons se cancelam e a equação global é recuperada. Esse é o caso mais simples, porque não há necessidade de ajustar oxigênio, hidrogênio ou meio.
Em reações mais complexas, especialmente quando espécies oxigenadas estão envolvidas, o balanceamento por semi-reações segue uma sequência ordenada. Primeiro, separam-se as semi-reações. Em seguida, balanceiam-se todos os átomos que não sejam oxigênio nem hidrogênio. Depois, ajustam-se oxigênios com e hidrogênios com em meio ácido ou com em meio básico. Por fim, a carga é ajustada com elétrons.
Em meio ácido, a redução do permanganato a manganês(II) é o exemplo mais importante: Se essa semi-reação for combinada, por exemplo, com a oxidação do íon ferro(II), é preciso multiplicar essa segunda semi-reação por para igualar os elétrons: A soma conduz à equação global:
Em meio básico, o ajuste final costuma exigir a neutralização de prótons por hidróxidos. Um exemplo simples é a desproporcionação do cloro em meio básico, que pode ser organizada por semi-reações, embora nesse caso a dedução completa seja mais longa. O ponto importante, para este nível, é reconhecer que o meio da reação afeta diretamente o balanceamento e, muitas vezes, também os produtos.
O método das semi-reações não é apenas uma técnica de balanceamento. Ele torna explícita a transferência de elétrons e esclarece a estrutura redox da transformação química.