Muitas reações inorgânicas em solução aquosa são governadas pela tendência de certos íons permanecerem dissolvidos, enquanto outros formam sólidos pouco solúveis. Essa diferença é uma das chaves da Química Inorgânica descritiva. Ela permite prever a formação de precipitados, interpretar mudanças visíveis no sistema e reconhecer a presença de certos íons em análise qualitativa. Nesta seção, o objetivo é mostrar como a solubilidade qualitativa organiza a química de precipitação, como certos precipitados se tornam particularmente característicos e como a dissolução seletiva e alguns ensaios clássicos ajudam a interpretar misturas iônicas.


1L.2aAs regras qualitativas de solubilidade

A solubilidade dos sais será tratada quantitativamente em outro momento, mas a Química Inorgânica elementar depende, desde já, de um conjunto de regularidades qualitativas. Essas regularidades não substituem o raciocínio químico; elas o orientam. Quando dois eletrólitos são misturados, a pergunta decisiva é se a nova combinação entre cátions e ânions permanecerá em solução ou se dará origem a um sólido pouco solúvel.

As regras mais úteis podem ser agrupadas em poucas famílias. Os sais de metais alcalinos e de amônio são, em geral, solúveis em água. Nitratos também são, em geral, solúveis. Muitos cloretos, brometos e iodetos são solúveis, mas há exceções importantes, sobretudo quando o cátion é prata, chumbo(II) ou mercúrio(I). Muitos sulfatos são solúveis, mas o sulfato de bário, o sulfato de chumbo(II) e o sulfato de estrôncio são pouco solúveis. Carbonatos, fosfatos, sulfetos e muitos hidróxidos tendem a ser pouco solúveis, exceto quando associados a metais alcalinos ou ao íon amônio.

Essas regras devem ser lidas como tendências e não como fórmulas absolutas. Seu papel é permitir uma previsão inicial da reação. Se uma mistura de duas soluções puder formar um sal pouco solúvel, a precipitação se torna plausível. Se todos os produtos possíveis permanecerem bem dissolvidos, a reação de dupla troca tende a não produzir uma mudança observável importante.

Considere, por exemplo, a mistura de nitrato de prata e cloreto de sódio: AgNOX3(aq)+NaCl(aq)AgCl(s)+NaNOX3(aq) \ce{ AgNO3(aq) + NaCl(aq) -> AgCl(s) + NaNO3(aq) } Como nitratos são solúveis e o cloreto de prata é pouco solúvel, a formação do precipitado AgCl\ce{AgCl} é a conclusão natural. O mesmo raciocínio se aplica ao sulfato de bário: BaClX2(aq)+NaX2SOX4(aq)BaSOX4(s)+2NaCl(aq) \ce{ BaCl2(aq) + Na2SO4(aq) -> BaSO4(s) + 2 NaCl(aq) } Nesses exemplos, a precipitação retira íons da solução e fornece a força motriz principal da transformação.

Solubilidade e reação observável

Uma dupla troca em solução só se torna quimicamente expressiva quando algum produto deixa de permanecer como íon livre em água. A formação de um precipitado é uma das maneiras mais claras de isso ocorrer.

A utilidade dessas regras não está em produzir listas decoradas, mas em treinar uma leitura rápida da equação. A cada nova mistura de sais, deve-se perguntar se alguma nova combinação cátion–ânion corresponde a uma espécie pouco solúvel.

As regras qualitativas de solubilidade permitem prever, de modo rápido, quando uma mistura de soluções iônicas pode produzir um precipitado. Elas são instrumentos de leitura química, não listas a serem memorizadas isoladamente.

1L.2bOs precipitados característicos

As regras de solubilidade (Tab. 1) resumem os padrões de solubilidade observados em compostos iônicos comuns em água. Observe que todos os nitratos e todos os compostos comuns de metais do Grupo 1 são solúveis e, portanto, são úteis como soluções de partida em reações de precipitação. Pode-se usar quaisquer íons espectadores porque eles permanecem em solução e, em princípio, não reagem.

Tabela
Regras de solubilidade em água
CompostosExceções
Compostos solúveisExceções insolúveis
Cátions do Grupo 1
NHX4X+\ce{NH4^+}
NOX3X\ce{NO3-}, CHX3COOX\ce{CH3COO-}, ClOX3X\ce{ClO3-} e ClOX4X\ce{ClO4-}
ClX\ce{Cl-}, BrX\ce{Br-} e IX\ce{I-}AgX+\ce{Ag+}, HgX2X2+\ce{Hg2^{2+}} e PbX2+\ce{Pb^{2+}}
SOX4X2\ce{SO4^{2-}}AgX+\ce{Ag+}, HgX2X2+\ce{Hg2^{2+}}, PbX2+\ce{Pb^{2+}}, CaX2+\ce{Ca^{2+}}, SrX2+\ce{Sr^{2+}} e BaX2+\ce{Ba^{2+}}
Compostos insolúveisExceções solúveis
COX3X2\ce{CO3^{2-}}, CrOX4X2\ce{CrO4^{2-}}, CX2OX4X2\ce{C2O4^{2-}} e POX4X3\ce{PO4^{3-}}Grupo 1 e NHX4X+\ce{NH4^+}
SX2\ce{S^{2-}}Grupos 1 e 2 e NHX4X+\ce{NH4^+}
OHX\ce{OH-} e OX2\ce{O^{2-}}Grupo 1 e NHX4X+\ce{NH4^+}

Alguns precipitados são especialmente importantes porque aparecem com frequência em laboratório e se tornam marcadores visuais de certos íons. O cloreto de prata, o sulfato de bário, certos hidróxidos metálicos e alguns carbonatos pouco solúveis pertencem a esse grupo. O valor desses precipitados não está apenas em sua baixa solubilidade, mas também no fato de que sua formação é seletiva o suficiente para auxiliar o reconhecimento químico.

O cloreto de prata é o exemplo clássico entre os haletos pouco solúveis: AgX+(aq)+ClX(aq)AgCl(s) \ce{ Ag^+(aq) + Cl^-(aq) -> AgCl(s) } Ele forma um precipitado branco, característico, e sua formação fornece uma indicação importante da presença de íons prata ou cloreto, dependendo do contexto do ensaio. O brometo e o iodeto de prata também precipitam: AgX+(aq)+BrX(aq)AgBr(s)AgX+(aq)+IX(aq)AgI(s) \begin{aligned} \ce{ Ag^+(aq) + Br^-(aq) &-> AgBr(s) }\\ \ce{ Ag^+(aq) + I^-(aq) &-> AgI(s) } \end{aligned} Esses três sais pertencem à mesma família analítica, embora suas cores e sua sensibilidade à luz não sejam idênticas.

O sulfato de bário é outro precipitado clássico: BaX2+(aq)+SOX4X2(aq)BaSOX4(s) \ce{ Ba^{2+}(aq) + SO4^{2-}(aq) -> BaSO4(s) } Sua solubilidade extremamente baixa o torna um dos exemplos mais nítidos de precipitação em química inorgânica. Por isso, ele aparece frequentemente tanto em exercícios quanto em ensaios de identificação de sulfato ou bário.

Os hidróxidos metálicos fornecem uma família muito importante de precipitados, não apenas por sua baixa solubilidade, mas também por suas cores características: CuX2+(aq)+2OHX(aq)Cu(OH)X2(s)FeX3+(aq)+3OHX(aq)Fe(OH)X3(s)FeX2+(aq)+2OHX(aq)Fe(OH)X2(s) \begin{aligned} \ce{ Cu^{2+}(aq) + 2 OH^-(aq) &-> Cu(OH)2(s) }\\ \ce{ Fe^{3+}(aq) + 3 OH^-(aq) &-> Fe(OH)3(s) }\\ \ce{ Fe^{2+}(aq) + 2 OH^-(aq) &-> Fe(OH)2(s) } \end{aligned} O hidróxido de cobre(II) forma um precipitado azul. O hidróxido de ferro(III) forma um precipitado marrom-avermelhado. O hidróxido de ferro(II) forma inicialmente um precipitado esverdeado, que pode escurecer por oxidação em contato com o ar. Essas diferenças visuais tornam os hidróxidos metálicos particularmente úteis em análise qualitativa.

Os carbonatos pouco solúveis também têm papel importante: CaX2+(aq)+COX3X2(aq)CaCOX3(s)BaX2+(aq)+COX3X2(aq)BaCOX3(s) \begin{aligned} \ce{ Ca^{2+}(aq) + CO3^{2-}(aq) &-> CaCO3(s) }\\ \ce{ Ba^{2+}(aq) + CO3^{2-}(aq) &-> BaCO3(s) } \end{aligned} A precipitação de carbonatos de metais alcalino-terrosos é uma manifestação clara da baixa solubilidade dessa classe de sais.

Uma das muitas aplicações das reações de precipitação utiliza duas soluções que, quando misturadas, formam o precipitado insolúvel que se deseja obter. Este composto insolúvel pode ser separado da mistura de reação por filtração. As reações de precipitação também são usadas na análise química. Na análise qualitativa — a identificação das substâncias presentes em uma amostra —, a formação de um precipitado é usada para confirmar a identidade de certos íons.

Certos precipitados são especialmente úteis porque combinam baixa solubilidade e aspecto característico. Eles transformam a análise qualitativa em uma leitura química visível.

1L.2cA dissolução seletiva e a complexação simples

A precipitação não encerra a química de uma espécie em solução. Em muitos casos, um precipitado pode voltar a se dissolver quando o meio é alterado. Essa dissolução seletiva é importante porque mostra que a baixa solubilidade de um sal não é uma propriedade isolada, mas o resultado de um equilíbrio que pode ser deslocado por novas reações químicas.

Um dos casos mais simples é a dissolução de precipitados em meio ácido. Carbonatos e hidróxidos metálicos pouco solúveis são particularmente sensíveis a isso. O carbonato de cálcio, por exemplo, dissolve-se em presença de ácido porque o ânion carbonato é consumido na formação de dióxido de carbono: CaCOX3(s)+2HX+(aq)CaX2+(aq)+COX2(g)+HX2O(l) \ce{ CaCO3(s) + 2 H^+(aq) -> Ca^{2+}(aq) + CO2(g) + H2O(l) } De modo semelhante, o hidróxido de cobre(II) dissolve-se em presença de ácido: Cu(OH)X2(s)+2HX+(aq)CuX2+(aq)+2HX2O(l) \ce{ Cu(OH)2(s) + 2 H^+(aq) -> Cu^{2+}(aq) + 2 H2O(l) } Nesses casos, a dissolução do precipitado não é um simples retorno mecânico à solução, mas a consequência de uma nova reação que remove um dos íons responsáveis pelo equilíbrio de solubilidade.

Outro caso importante envolve a formação de complexos. O hidróxido de zinco, por exemplo, é pouco solúvel, mas pode dissolver-se em excesso de base forte porque o zinco forma um hidroxocomplexo: Zn(OH)X2(s)+2OHX(aq)[Zn(OH)X4]X2(aq) \ce{ Zn(OH)2(s) + 2 OH^-(aq) -> [Zn(OH)4]^{2-}(aq) } A mesma ideia aparece com o hidróxido de alumínio: Al(OH)X3(s)+OHX(aq)[Al(OH)X4]X(aq) \ce{ Al(OH)3(s) + OH^-(aq) -> [Al(OH)4]^-(aq) } Esses casos mostram que o anfoterismo não é apenas uma questão de classificação; ele tem consequências diretas sobre a solubilidade observada em diferentes meios.

A amônia também desempenha papel importante em dissoluções seletivas porque pode atuar como ligante simples. O precipitado de hidróxido de cobre(II), por exemplo, pode ser dissolvido em excesso de amônia, formando uma espécie complexa intensamente colorida: Cu(OH)X2(s)+4NHX3(aq)[Cu(NHX3)X4]X2+(aq)+2OHX(aq) \ce{ Cu(OH)2(s) + 4 NH3(aq) -> [Cu(NH3)4]^{2+}(aq) + 2 OH^-(aq) } A formação desse complexo ilustra de maneira muito clara a ligação entre solubilidade, equilíbrio e ácido-base de Lewis.

Precipitar não é o fim da reação

Um precipitado pode desaparecer se uma nova reação consumir um de seus íons ou gerar uma espécie complexa mais estável em solução. Por isso, a observação de um sólido e a de sua dissolução posterior pertencem ao mesmo quadro químico.

A dissolução seletiva é particularmente útil em análise qualitativa porque permite distinguir precipitados aparentemente semelhantes. Mais do que isso, ela revela que a Química Inorgânica em solução não é estática. As espécies mudam de forma, de solubilidade e de identidade conforme o meio se altera.

A dissolução seletiva mostra que a solubilidade depende do meio químico. Ácidos, bases e ligantes podem deslocar o equilíbrio e reconduzir à solução espécies antes precipitadas.

1L.2dOs ensaios clássicos e o reconhecimento de íons

A análise qualitativa inorgânica se desenvolveu, em grande parte, a partir da observação de sinais macroscópicos simples: formação de precipitado, mudança de cor, desprendimento de gás, odor e coloração da chama. Esses sinais não substituem a interpretação química, mas a tornam visível. Eles permitem reconhecer padrões e associar certos comportamentos a famílias de íons.

Tabela
Alguns sinais qualitativos clássicos
Sinal observadoInterpretação química mais provável
efervescência na adição de HCl(aq)\ce{HCl(aq)} ou HNOX3(aq)\ce{HNO3(aq)}presença de carbonato ou bicarbonato, com liberação de COX2(g)\ce{CO2(g)}
odor pungente ao aquecer com base forte, como NaOH(aq)\ce{NaOH(aq)}presença de íon amônio, com liberação de NHX3(g)\ce{NH3(g)}
odor de ovo podre na adição de ácido fortepresença de sulfeto, com liberação de HX2S(g)\ce{H2S(g)}
precipitado branco na adição de AgNOX3(aq)\ce{AgNO3(aq)}presença provável de haleto: ClX\ce{Cl^-}, BrX\ce{Br^-} ou IX\ce{I^-}
precipitado branco na adição de BaClX2(aq)\ce{BaCl2(aq)} ou Ba(NOX3)X2(aq)\ce{Ba(NO3)2(aq)}presença provável de sulfato
precipitado branco com BaX2+\ce{Ba^{2+}} que se dissolve após acidificaçãopresença provável de carbonato ou sulfito, e não sulfato
precipitado azul na adição de base fortepresença de CuX2+\ce{Cu^{2+}}, com formação de Cu(OH)X2(s)\ce{Cu(OH)2(s)}
precipitado verde na adição de base fortepresença de FeX2+\ce{Fe^{2+}}, com formação inicial de Fe(OH)X2(s)\ce{Fe(OH)2(s)}
precipitado marrom-avermelhado na adição de base fortepresença de FeX3+\ce{Fe^{3+}}, com formação de Fe(OH)X3(s)\ce{Fe(OH)3(s)}
precipitado branco gelatinoso na adição de base fortepresença de AlX3+\ce{Al^{3+}} ou ZnX2+\ce{Zn^{2+}}; pode indicar hidróxido anfótero
precipitado branco que se dissolve em excesso de OHX\ce{OH^-}presença provável de AlX3+\ce{Al^{3+}}, ZnX2+\ce{Zn^{2+}} ou PbX2+\ce{Pb^{2+}}
precipitado azul que se dissolve em excesso de NHX3(aq)\ce{NH3(aq)}, formando solução azul intensapresença de CuX2+\ce{Cu^{2+}}, com formação de complexo amoniacal
turvação da água de cal, Ca(OH)X2(aq)\ce{Ca(OH)2(aq)}, ao borbulhar um gáspresença de COX2(g)\ce{CO2(g)}, com formação de CaCOX3(s)\ce{CaCO3(s)}
papel vermelho de tornassol que se torna azul em contato com gás ou soluçãopresença de base ou de NHX3(g)\ce{NH3(g)}
papel azul de tornassol que se torna vermelho em contato com gás ou soluçãopresença de ácido ou de gás ácido, como HCl(g)\ce{HCl(g)}
depósito metálico sobre a superfície de outro metal imerso em solução salinareação de deslocamento, indicando metal mais redutor

A efervescência é um dos sinais mais importantes. Quando um carbonato ou bicarbonato reage com um ácido, o dióxido de carbono é liberado: CaCOX3(s)+2HCl(aq)CaClX2(aq)+COX2(g)+HX2O(l)NaHCOX3(s)+HCl(aq)NaCl(aq)+COX2(g)+HX2O(l) \begin{aligned} \ce{ CaCO3(s) + 2 HCl(aq) &-> CaCl2(aq) + CO2(g) + H2O(l) }\\ \ce{ NaHCO3(s) + HCl(aq) &-> NaCl(aq) + CO2(g) + H2O(l) } \end{aligned} Essa observação sugere imediatamente a presença de um carbonato ou bicarbonato, desde que outras possibilidades tenham sido descartadas.

A formação de precipitados coloridos ou de aspecto marcante também é muito útil. O precipitado azul de Cu(OH)X2\ce{Cu(OH)2} e o precipitado marrom-avermelhado de Fe(OH)X3\ce{Fe(OH)3} são exemplos clássicos já vistos. O cloreto de prata e o sulfato de bário, ambos brancos, são menos distinguíveis pela cor, mas sua formação em condições bem definidas continua sendo um sinal importante.

O ensaio de chama é outro recurso tradicional. Certos cátions emitem cores características quando aquecidos em chama. O sódio produz uma cor amarela intensa, o potássio uma cor lilás, o cálcio uma cor alaranjada-avermelhada, o bário uma cor verde e o cobre uma cor verde-azulada. O valor do ensaio está menos em sua precisão absoluta do que em sua rapidez como indicação inicial da presença de certos metais.

O reconhecimento de íons por ensaios simples exige prudência. Nenhum sinal deve ser tratado como independente do contexto químico. Um precipitado branco, por exemplo, pode corresponder a mais de uma espécie. Uma chama colorida pode ser mascarada pela presença de sódio. Ainda assim, a combinação entre observação macroscópica e raciocínio químico constitui uma das marcas mais características da análise qualitativa inorgânica.

Atenção

Um ensaio qualitativo fornece indícios, não sentenças isoladas. A interpretação correta depende do reagente usado, do meio da reação e da possibilidade de outras espécies exibirem comportamento semelhante.

A importância desses ensaios está em mostrar que a Química Inorgânica é uma ciência de espécies visíveis e invisíveis ao mesmo tempo. Os íons em solução não são observados diretamente, mas deixam sinais suficientemente claros para que sua presença seja inferida por quem conhece os padrões de reatividade.

Os ensaios qualitativos traduzem a química dos íons em sinais observáveis. Precipitados, cores, gases e chamas são manifestações macroscópicas de equilíbrios e reações em solução.