Os sais ocupam uma posição natural na Química Inorgânica porque aparecem como produtos de neutralização, como constituintes de minerais, como reagentes de laboratório e como materiais de uso corrente. Em muitos casos, a compreensão de um sal depende de três perguntas simples. De que ácido ele pode ser derivado? De que base ele pode ser derivado? E como sua fórmula traduz essa origem? Quando essas perguntas são respondidas em sequência, a nomenclatura deixa de ser uma convenção isolada e passa a refletir a própria estrutura química do composto.
Um sal pode ser entendido, em primeira aproximação, como o composto resultante da substituição do hidrogênio ionizável de um ácido por um cátion. Essa substituição aparece com clareza nas reações de neutralização. Quando o ácido clorídrico reage com o hidróxido de sódio, forma-se cloreto de sódio: No produto, o cátion provém da base e o ânion provém do ácido. O sal pode, portanto, ser lido como a combinação entre a parte positiva da base e a parte negativa do ácido.
A mesma lógica se aplica a sais mais complexos. O sulfato de cálcio, por exemplo, pode ser obtido a partir do ácido sulfúrico e do hidróxido de cálcio: Nesse caso, a neutralização é total. Todos os hidrogênios ionizáveis do ácido foram substituídos pelo cátion , e todos os grupos da base foram consumidos na formação de água.
Quando a neutralização é parcial, o sal retém parte da estrutura do ácido ou da base. O hidrogenossulfato de sódio e o hidroxicloreto de magnésio ilustram essas possibilidades: No primeiro caso, a fórmula do sal ainda conserva um hidrogênio ionizável derivado do ácido. No segundo, a fórmula ainda conserva um grupo hidroxila derivado da base. Essas diferenças estruturais serão importantes na classificação dos sais.
Os sais também podem ser obtidos por outras rotas além da neutralização direta. Um ácido pode reagir com um óxido básico, um carbonato ou um metal, e, em muitos desses casos, um sal é novamente produzido: Essas reações mostram que a noção de sal é mais ampla do que o caso particular da neutralização entre ácido e hidróxido. Ainda assim, a origem ácido-base continua sendo a forma mais útil de interpretar sua composição e sua nomenclatura.
A nomenclatura dos sais segue uma regra simples na aparência, mas muito expressiva em conteúdo: o nome do sal é construído a partir do nome do ânion e do nome do cátion. O ponto decisivo, portanto, é reconhecer como o ânion deriva do ácido de origem e como o cátion deriva da base ou do composto que o fornece.
Nos sais derivados de hidrácidos, a terminação do nome do ânion é, em geral, -eto. Assim, o ácido clorídrico origina o ânion cloreto, o ácido bromídrico origina o ânion brometo, e o ácido sulfídrico origina o ânion sulfeto. Os nomes dos sais seguem imediatamente dessa transformação:
| Ácido | Ânion | Sal | Nome do sal |
|---|---|---|---|
| cloreto de sódio | |||
| brometo de potássio | |||
| iodeto de cálcio | |||
| sulfeto de ferro(II) | |||
| cianeto de potássio |
Nos sais derivados de oxoácidos, a mudança principal ocorre na terminação do nome do ânion. Em linhas gerais, um ácido terminado em -oso origina um ânion terminado em -ito, e um ácido terminado em -ico origina um ânion terminado em -ato. Esse padrão deve ser aprendido logo no início, porque ele organiza grande parte da nomenclatura inorgânica:
| Nome do ácido | Nome do ânion |
|---|---|
| …oso | …ito |
| …ico | …ato |
| hipo-…-oso | hipo-…-ito |
| per-…-ico | per-…-ato |
A aplicação dessa regra é imediata em muitos sais correntes:
| Ácido | Ânion | Sal | Nome do sal |
|---|---|---|---|
| nitrito de sódio | |||
| nitrato de potássio | |||
| sulfito de cálcio | |||
| sulfato de sódio | |||
| fosfato de alumínio | |||
| hipoclorito de sódio | |||
| perclorato de potássio |
Quando o cátion pode apresentar mais de um número de oxidação, a nomenclatura de Stock deve ser usada, como já ocorreu com os hidróxidos. O nome do cátion é então seguido de seu NOX em algarismos romanos: Esses exemplos deixam claro que a fórmula do sal e o NOX do cátion se esclarecem mutuamente. Cada ânion contribui com sua carga; o conjunto deve ser eletricamente neutro; o NOX do cátion é então determinado pela neutralidade do composto.
O nome do sal não é dado pelo nome do ácido inteiro, mas pelo nome do ânion derivado do ácido. Por isso, o ácido sulfúrico não gera “sulfúrico de sódio”, mas sulfato de sódio.
Em alguns sais muito usuais, sobrevivem nomes tradicionais que continuam amplamente empregados. O hidrogenocarbonato de sódio, , é frequentemente chamado de bicarbonato de sódio; o sulfato duplo de potássio e alumínio, , é conhecido como alúmen. Esses nomes devem ser reconhecidos, mas a lógica sistemática da nomenclatura deve permanecer como referência principal.
A nomenclatura dos sais se apoia na origem ácido-base do composto. O ânion conserva a memória do ácido de origem, e o cátion conserva a memória da base ou do composto que o fornece.
Os sais não formam uma classe única e uniforme. Sua composição permite distinguir diferentes subclasses, e essas distinções são importantes porque ajudam a interpretar tanto a fórmula quanto o modo de formação do composto.
O caso mais simples é o do sal normal ou sal neutro, em que todos os hidrogênios ionizáveis do ácido foram substituídos por cátions, e nenhum grupo hidroxila foi retido da base. O cloreto de sódio, o sulfato de cálcio e o fosfato de alumínio pertencem a essa classe:
Quando o sal ainda conserva hidrogênio ionizável proveniente do ácido, ele é um sal ácido ou hidrogenossal. O hidrogenossulfato de sódio e o hidrogenocarbonato de sódio são exemplos característicos: Nesses casos, o ácido de origem não foi neutralizado completamente.
Quando o sal ainda conserva um ou mais grupos hidroxila provenientes da base, ele é um sal básico ou hidroxissal. O hidroxicloreto de magnésio, , e o hidroxinitrato de bismuto, , ilustram essa classe. Eles podem ser vistos como produtos de neutralização parcial da base:
Há ainda os sais duplos, que contêm dois cátions diferentes ou dois ânions diferentes em proporção definida no mesmo retículo cristalino. O alúmen de potássio, , é um exemplo clássico: Em muitos casos, esses sais se cristalizam com água de hidratação, o que introduz uma nova característica descritiva.
Finalmente, muitos sais aparecem como sais hidratados, nos quais moléculas de água fazem parte do cristal. O sulfato de cobre(II) pentahidratado e o carbonato de sódio decahidratado são exemplos comuns: A água de hidratação não altera a identidade fundamental do sal, mas modifica propriedades como cor, densidade e estabilidade ao aquecimento.
A classificação de um sal como normal, ácido, básico, duplo ou hidratado é uma classificação estrutural. Ela não coincide, necessariamente, com o efeito da substância sobre a solução aquosa. Um sal ácido, por exemplo, não é chamado assim porque sua solução tenha sempre caráter ácido, mas porque sua fórmula ainda contém hidrogênio ionizável.
Os sais podem ser classificados estruturalmente como normais, ácidos, básicos, duplos ou hidratados. Essa classificação ajuda a interpretar a fórmula e o modo de formação do composto.