A Química Inorgânica torna-se mais nítida quando os compostos deixam de ser vistos apenas como fórmulas isoladas e passam a ser reconhecidos como substâncias reais, presentes em rochas, materiais de construção, vidros, solos, metais e processos industriais. Muitos dos sais e óxidos mais importantes aparecem justamente nesse nível descritivo. Eles mostram como a composição química se traduz em propriedades, reatividade e aplicações. Nesta seção, o objetivo é reunir algumas famílias particularmente importantes e mostrar como elas se conectam à química dos materiais.
Os carbonatos e bicarbonatos estão entre os sais mais importantes da Química Inorgânica descritiva. Eles aparecem em minerais, águas naturais, materiais de construção, antiácidos, fermentos e em um grande número de processos industriais. O ânion carbonato, , deriva do ácido carbônico, , e o ânion hidrogenocarbonato, , representa a forma parcialmente neutralizada do mesmo ácido. A relação entre essas espécies é uma das mais importantes de toda a química dos sais: Essa sequência explica por que carbonatos e bicarbonatos pertencem à mesma família química e por que ambos aparecem com tanta frequência em sistemas naturais e tecnológicos.
O carbonato de cálcio, , é o membro mais importante dessa família do ponto de vista geológico e tecnológico. Ele é o principal constituinte do calcário, do mármore, da giz e de muitas conchas e esqueletos calcários. Sua baixa solubilidade em água está na origem de sua abundância como mineral, mas sua reatividade com ácidos o torna quimicamente muito expressivo: A liberação de dióxido de carbono é a marca característica da reação de um carbonato com um ácido. Essa efervescência é uma das observações mais úteis em análise qualitativa e em experimentos simples de laboratório.
O aquecimento do carbonato de cálcio leva à sua decomposição térmica: Essa reação está no centro da produção de cal a partir do calcário. O sólido formado, , é a cal virgem; o gás liberado é o dióxido de carbono. Assim, o carbonato de cálcio ocupa uma posição central na química dos materiais de construção.
O carbonato de sódio, , e o hidrogenocarbonato de sódio, , têm importância diferente. O primeiro, também chamado barrilha, é um sal básico de grande uso industrial. O segundo, conhecido como bicarbonato de sódio, é um hidrogenossal amplamente usado em química doméstica e industrial. O bicarbonato se decompõe com relativa facilidade ao aquecimento: Essa reação ajuda a explicar sua utilização em fermentos químicos e em sistemas em que a liberação de gás é desejável.
A família carbonato–bicarbonato também é importante em águas naturais. A dissolução de dióxido de carbono em água e sua interação com carbonatos pouco solúveis participam do equilíbrio químico de rios, lagos, cavernas calcárias e aquíferos: Essas transformações mostram que carbonatos e bicarbonatos pertencem a uma química ampla, que envolve sais, ácidos, gases dissolvidos e minerais.
Carbonatos e bicarbonatos formam uma família química central na Inorgânica. Eles conectam ácidos polipróticos, sais pouco solúveis, liberação de e química de minerais e materiais.
A química do cálcio fornece uma das pontes mais diretas entre Química Inorgânica e ciência dos materiais. A cal, o cimento e o gesso são materiais de uso cotidiano, mas sua preparação e seu comportamento dependem de transformações químicas muito características de óxidos, hidróxidos e sais hidratados.
A cal virgem é o óxido de cálcio, , obtido pela decomposição térmica do carbonato de cálcio: O óxido de cálcio é um óxido básico. Sua reação com água é fortemente exotérmica e conduz ao hidróxido de cálcio: O produto, , é a cal hidratada ou cal apagada. Esse composto é menos agressivo que a cal virgem, mas continua sendo uma base importante e um reagente muito usado em argamassas, correção de acidez do solo e tratamento de água.
A exposição da cal hidratada ao dióxido de carbono do ar conduz novamente ao carbonato de cálcio: Essa transformação, chamada carbonatação, é uma das razões pelas quais argamassas à base de cal endurecem ao longo do tempo. O sistema calcário, cal virgem, cal hidratada, calcário constitui, portanto, um ciclo químico descritivamente muito importante.
O gesso tem composição diferente. Ele é baseado no sulfato de cálcio hidratado, especialmente o di-hidratado, : Quando aquecido cuidadosamente, esse composto perde parte da água de hidratação e fornece uma forma parcialmente desidratada que, misturada com água, endurece novamente por reidratação. É essa reversibilidade parcial que torna o gesso útil em moldes, revestimentos e acabamentos.
O cimento é mais complexo do que a cal ou o gesso, porque não corresponde a um único composto definido. Ele é uma mistura de silicatos e aluminatos de cálcio obtida pela calcinação de matérias-primas adequadas e pela posterior moagem do clínquer com pequenas quantidades de gesso. Mesmo assim, a química do cálcio continua no centro do processo. O comportamento do cimento envolve reações de hidratação, formação de fases sólidas e endurecimento progressivo da pasta. Embora uma descrição detalhada dessas fases pertença a um estudo mais especializado, é importante reconhecer desde já que o cimento é um material fortemente ancorado na química de óxidos e sais de cálcio.
Assim, cal, gesso e cimento fornecem três exemplos muito instrutivos. A cal mostra a química de um óxido básico e de um hidróxido. O gesso mostra a importância da água de hidratação nos sais. O cimento mostra que materiais industriais relevantes podem depender de misturas complexas de compostos inorgânicos, e não apenas de uma substância pura.
A química do cálcio ilustra de maneira exemplar a passagem da fórmula ao material. Cal, gesso e cimento resultam de transformações entre carbonatos, óxidos, hidróxidos e sais hidratados.
O dióxido de carbono e o dióxido de silício fornecem uma comparação particularmente instrutiva. Ambos são óxidos ácidos, ambos têm fórmulas do tipo , mas suas propriedades físicas e químicas são profundamente diferentes. Essa diferença mostra com clareza que a fórmula empírica, por si só, não basta para descrever o comportamento de um composto.
O dióxido de carbono, , é um óxido molecular. Suas moléculas são discretas, lineares e mantidas próximas umas das outras apenas por interações intermoleculares fracas. Essa estrutura explica seu estado gasoso em condições usuais. Em água, ele participa do equilíbrio que conduz ao ácido carbônico: Em presença de bases, reage prontamente para formar carbonatos ou bicarbonatos: Essa química torna o dióxido de carbono central tanto em sistemas naturais quanto em processos industriais e laboratoriais.
O dióxido de silício, , apresenta comportamento muito diferente porque não é molecular. Ele forma uma rede covalente extensa, na qual cada átomo de silício se encontra ligado a átomos de oxigênio em uma estrutura tridimensional. Essa organização explica seu alto ponto de fusão, sua dureza e sua baixa reatividade em água. Embora seja um óxido ácido, o não reage com água para formar um ácido em condições usuais. Seu caráter ácido se revela melhor diante de bases fortes ou em processos de fusão alcalina: ou, em termos mais gerais, pela formação de silicatos.
Os silicatos são sais derivados de ácidos silícicos e constituem uma família imensa de compostos naturais e artificiais. Boa parte da crosta terrestre é formada por minerais silicatados. Vidros, cerâmicas e muitos materiais de construção dependem diretamente da química dos silicatos. Em um primeiro contato, o ponto mais importante não é decorar fórmulas específicas de minerais, mas compreender que a química do silício conduz naturalmente a estruturas reticulares e a uma grande diversidade de sais complexos, em contraste com a simplicidade molecular do dióxido de carbono.
A comparação entre e é particularmente valiosa porque mostra que dois óxidos ácidos podem diferir radicalmente em estrutura e reatividade. O primeiro é molecular, volátil e facilmente envolvido em equilíbrios em solução. O segundo é reticular, pouco volátil e quimicamente muito mais resistente. Essa oposição é uma das mais esclarecedoras da Química Inorgânica.
As fórmulas e sugerem uma analogia simples, mas a estrutura dos compostos é muito diferente. O dióxido de carbono é molecular; o dióxido de silício é uma rede covalente extensa.
A comparação entre e mostra que a estequiometria não determina, sozinha, o comportamento químico. Estrutura e tipo de ligação são decisivos.
Alguns dos materiais inorgânicos mais importantes são óxidos metálicos de transição ou de metais de fronteira. Entre eles, a alumina e os óxidos de ferro ocupam posição de destaque. Eles são exemplos muito úteis porque unem estrutura, nomenclatura, estado de oxidação, materiais e transformações redox.
A alumina é o óxido de alumínio, . Ela ocorre na natureza em minerais como a bauxita e o coríndon, e é um dos materiais mais importantes da indústria do alumínio e de materiais cerâmicos. Quimicamente, a alumina merece atenção especial porque é um óxido anfótero. Em meio ácido, dissolve-se com formação de sais de alumínio; em meio fortemente básico, dissolve-se com formação de aluminatos: Esse comportamento confirma a posição intermediária do alumínio entre metais fortemente básicos e não metais formadores de óxidos ácidos.
Os óxidos de ferro introduzem outro aspecto importante: a multiplicidade de estados de oxidação. O ferro forma, entre outros, o óxido de ferro(II), , o óxido de ferro(III), , e o óxido misto , que pode ser interpretado como uma combinação de e : Essa variedade mostra que um mesmo elemento pode originar diferentes óxidos, cada qual com propriedades próprias.
A ferrugem é um caso particularmente importante. Em sentido estrito, ela não corresponde a um único composto puro, mas a uma mistura complexa de óxidos hidratados e hidróxidos de ferro(III), formada na corrosão do ferro em presença de oxigênio e água. Em uma descrição simplificada, pode-se representar a transformação global por: O ponto importante, do ponto de vista descritivo, é que a ferrugem é o resultado visível de um processo redox e de hidratação. Ela não funciona como camada protetora eficiente, razão pela qual a corrosão do ferro costuma prosseguir.
Isso contrasta fortemente com o alumínio. O metal alumínio forma rapidamente uma camada fina e aderente de em sua superfície. Essa camada é compacta e protetora, o que explica a relativa resistência do alumínio à corrosão em muitas condições. A comparação entre ferrugem e alumina protetora é uma das mais instrutivas da Química Inorgânica dos materiais.
Alguns óxidos metálicos de transição também são importantes como pigmentos, catalisadores e materiais funcionais. O óxido de ferro(III), por exemplo, está associado à cor avermelhada de muitos solos e minerais. O óxido misto , conhecido como magnetita, possui propriedades magnéticas importantes. Assim, a química dos óxidos metálicos não se limita à nomenclatura ou à classificação ácido-base; ela se estende às propriedades macroscópicas e às aplicações.
Alumina e óxidos de ferro mostram que a Química Inorgânica dos materiais depende tanto da composição quanto do estado de oxidação e da estrutura do sólido. O comportamento de um óxido metálico não é determinado apenas pelo nome da classe a que ele pertence.